sábado, 29 de dezembro de 2012

Luz para iluminar as nações!

Luz para iluminar as nações!

Evangelho do dia (Lc 2, 22-35):

22Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24Foram também oferecer o sacrifício – um par de rolas ou dois pombinhos – como está ordenado na Lei do Senhor. 25Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, 26e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor.
27Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29“Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30porque meus olhos viram a tua salvação, 31que preparaste diante de todos os povos: 32luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”.
33O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti uma espada te traspassará a alma”. 
Simeão e Ana com o Menino Jesus
_________________________________________

A Igreja reza todos os dias o cântico de Simeão na Liturgia das horas. Inicia a noite louvando a Luz que é Jesus. O Evangelho de hoje nos coloca diante dessa "Luz para iluminar as nações", segundo as palavras de Simeão. Interessante como a Luz é também sinal de contradição, para Simeão. Embora iluminar nos pareça uma coisa boa, e realmente é, parece que não é de todo uma experiência agradável. Principalmente para quem se acostumou com as trevas. As trevas não resistem a Luz, de modo que tudo o que estava oculto por elas se faz manifesto pela Luz. Daí um pensamento sobre o assunto: Quando a Luz-Jesus ilumina nossa vida e manifesta o que não queríamos que fosse visto, que são nossos defeitos e pecados, como reagimos? Por isso Ele é sinal de contradição, porque revela o que estava oculto no coração... A Luz de Jesus demanda uma tomada de posição, pois ninguém pode ficar indiferente a sua presença!

Mas Deus não faz isso por esporte, ou para louvar a si mesmo diante de nossa miséria. Revela nossa condição como primeiro passo de nossa recriação. A luz dissipa nossas trevas para que possamos partir de nossa verdade pessoal, rumo a santidade que Ele planejou para nós. Tudo é manifesto para que tudo seja transformado! É Jesus quem faz novas todas as coisas! O que precisamos é da disposição justa, pois o Senhor revela mas também estende a mão! Vocês perceberam na pintura acima que toda a luz do quadro emana de Jesus? É ele quem revela a fisionomia de Simeão e de Ana. O Papa João Paulo II já afirmava: Cristo, que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela também plenamente o homem ao mesmo homem e descobre-lhe a sua vocação sublime (RH n.8). A alegria de Simeão é justificada, pois todo aquele que se deixar tomar pela luz, pela luz alcançará a glória de Deus! Ele pode ir em paz, porque viu essas coisas se realizarem!

Mas existe também uma atitude perigosa... Aquela de tentar suprimir o que se revela, por orgulho ou por vergonha. Mas como ocultar de novo o que a Luz revela senão eliminando a própria Luz? No canto de Simeão existe também um anúncio de dor para Maria. Ela, que foi iluminada por primeiro, pois a graça lhe concedeu gerar a Luz, será traspassada na alma! O homem que não aceita a luz, a rejeita. Por isso João disse no Evangelho: "[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1, 9-14). O nosso pecado leva Jesus a Cruz, mas a Cruz de Jesus mata o pecado! Por mais que o mundo rejeite Jesus, Ele permanece como anúncio para uns, denúncia para outros. Como diz o próprio Simeão: "Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição". Forte é saber que a mesma Luz, dependendo de nossa disposição diante dela, nos salvará ou nos acusará!
O Natal é a festa desse "Sol nascente que nos veio visitar, lá do alto como luz resplandecente, a iluminar a quanto jazem entre as trevas". O Natal é festa de iluminação, pois a luz do Senhor não só revela nossa verdade mas também mostra o caminho a se percorrer. Deixemo-nos, então, conduzir por essa Luz-Jesus rumo ao Reino definitivo preparado por Deus para nós.
Paz!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Comentário do Evangelho do dia (28/12/12)

O misterioso sofrimento dos inocentes!

Evangelho do dia (Mt 2, 13-18):

13Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. 14José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. 15Ali ficou até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu Filho”. 16Quando Herodes percebeu que os magos o haviam enganado, ficou muito furioso. Mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território vizinho, de dois anos para baixo, exatamente conforme o tempo indicado pelos magos. 17Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: 18“Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais”.

_________________________________________


Estamos celebrando a memória dos santos inocentes... Confesso que é uma memória que me dói. O inocente sofre por causa do pecado dos culpados! O lamento de Raquel é verdadeiro, não só pela perda, mas pela situação: assim como o bem feito repercute nos outros, o mal também. É forte o fato que a narração de hoje esteja no contexto da infância de Jesus, e no sacrifício das crianças. É impressionante como a imposição de nossas vontades sempre fazem com que os mais fracos padeçam. A sede de poder de Herodes fez com que ele matasse as crianças e desterrasse Jesus. A sede de Herodes pelo poder ainda se faz ouvir nos gritos de liberdade de nossos dias... Quando uma jovem diz que é dona do próprio corpo e que faz com ele o que quiser, mesmo que isso signifique a morte do filho no seu ventre (não é um santo inocente?); quando alguém se declara livre para um vida de sexual desregrada e seduz e leva perdição outras pessoas (quantos pais, mães, filhos, amigos, famílias sofrem pela desonestidade de um, não são inocentes que sofrem?); quando um se enriquece ilicitamente desviando dinheiro das coisas públicas (os que deixam de gozar dos benefícios justos não são inocentes que sofrem?); e até naquele pecado secreto, que acreditamos não fazer mal a ninguém a não ser a nós mesmos, mas que nos rouba da graça, de Deus e dos outros (não são eles inocentes que sofrem?). A memória dos que morrem por causa dos pecados dos outros deveria nos fazer mudar...

Impressionante como o Criador do mundo, ao encarnar-se, deva viver como estrangeiro... Deus nos fez administradores do mundo e nós nos sentimos dono dele, nos fez administradores de nossa vida e de nosso corpo e nós nos apropriamos disso também. O fato é que quando o verdadeiro dono do mundo se apresentou entre nós, nosso desejo era de expulsá-lo. Esse movimento começa com a matança de Herodes e termina com o grito enfurecido de "crucifica-o!" Alguém pode dizer; não sou como Herodes! Tudo bem, de acordo, não matamos criancinhas... Mas o nosso pecado não é também uma forma de expulsá-lo de nossas vidas? De nos fazermos senhores de nossa própria ruína?
 
Mas aqui também está a beleza do Natal... Mesmo desterrado ele permanece em nosso meio, retorna quando damos oportunidade, cura quando deixamos, respeita quando dizemos não, acolhe quando pedimos perdão, sofre com o nosso sofrimento, em resumo nos ama! Não nos ama com amor romântico, nos ama até as últimas consequências, nos ama até a cruz! Apesar de nossas negativas ele persiste, e isso é maravilhoso! O Amor de Deus nos constrange... Nossa conversão deve acontecer por convencimento desse amor, mas também pela consciência de que o outro sofre injustamente com a nossa demora. Senhor, que os inocentes não sofram mais com as nossas demoras, mas que o teu amor se faça amor em nós, e que o nosso amor possa amar o mais pequenino! Santo Inocentes, Rogai por nós!
 
Paz!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Comentário do Evangelho de hoje (22/12/12): Na verdade o Senhor fez grandes coisas!

Na verdade o Senhor fez grandes coisas!

Evangelho do dia (Lc 1, 46-56):

Naquele tempo, 46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem.
51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa. 
_________________________________________

Encontro da Virgem com sua prima Isabel

No Evangelho de Hoje temos o canto do Magnificat, cantado e interpretado de tantas formas diferentes que fica difícil dizer algo novo sobre o texto. No entanto, suas palavras são tão fortes que podemos nos deixar sempre interpelar pela sua mensagem. Ainda mais preparando o Natal. A Virgem entoa um grande louvor ao Senhor pelos seus feitos, mas esse louvor é atemporal. Ao mesmo tempo que é memória, pois o antigo testamento está repleto dos grandes feitos do Senhor, é também presente, pois em seu seio está o Salvador! Mas é também futuro, porque os atos de Cristo serão realizados para todas as gerações! O canto é declaração de que o amor de Deus por nós é desde sempre e para sempre! Ele não se esquece!
 
O canto também revela a predileção do Senhor pelo pequenino... Isso porque o pequenino é o que precisa ser atendido primeiro, exatamente porque no mundo não há ninguém por ele. Por isso o Senhor se coloca do lado da viúva e do órfão, veio para os cegos, cochos, prisioneiros, pobres, porque a estes faltou o cuidado dos que podiam. Deus vai o encontro primeiro de quem é esquecido, porque Ele não se esquece de ninguém! E isso é a grande manifestação do seu amor, os prediletos de Deus são os que não foram amados por ninguém, os desconsiderados pela lógica do mundo. Isso deveria nos dizer algo, não é verdade? Talvez devêssemos nos empenhar mais em lembrar daqueles que são esquecidos por todos...
 
Podemos ainda ver no canto de Maria a profunda positividade da ação de Deus e a abundância com que atua: Quebra os soberbos - e isso é amor! -,  eleva os humildes, porque são os melhores para liderar, farta os famintos e não dá nada a quem já tem. Deus é bom! A oração de Maria não é uma petição, é um louvor! Vale dizer que como louvor é já declaração de que o Senhor fez, faz e fará sempre essas coisas, porque Ele é grande! A Virgem sabe. A Virgem testemunha. A Virgem louva. O Senhor fez grandes coisas em seu favor!

O canto de Maria deveria ser também nosso canto... Mas será que já alcançamos a convicção e a alegria para louvar como ela? Podemos testemunhar as grandezas do Senhor? Já as reconhecemos também na nossa vida? O louvor verdadeiro brota também da convicção de que quem louvamos merece louvor... O canto de Maria nos convida também a ser como Deus, a agir como ele, a fartar famintos, a elevar humildes, a recordar dos necessitados, a estender a misericórdia a todos. Enfim, devemos louvar como Maria e agir como o Senhor! Que neste Natal possamos nos aproximar mais disso.

Paz!

Preparando o Natal: São Beda, o Venerável, comenta o Magníficat.

Segunda leitura
Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de São Beda Venerável, presbítero,
(Lib. 1, 46-55: CCL 120, 37-39)
(Séc. VIII)
Magnificat
E Maria disse: A minh’alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,46-47).
O Senhor, diz ela, elevou-me por um dom tão grande e inaudito, que nenhuma palavra o pode descrever e mesmo no íntimo do coração é difícil compreendê-lo. Por isso dedico todas as forças de meu ser ao louvor e à ação de graças, contemplando a grandeza daquele que é eterno, e ofereço com alegria minha vida, tudo que sinto e penso, porque meu espírito rejubila pela divindade eterna de Jesus, o Salvador, que concebi e é gerado em meu seio.

O Poderoso fez em mim maravilhas, e santo é o seu nome! (Lc 1,49).

Estas palavras se relacionam com o início do cântico que diz: A minh’alma engrandece o Senhor. De fato, só a alma em quem o Senhor se dignou fazer maravilhas pode engrandecê-lo e louvá-lo dignamente e dizer, exortando os que compartilham seus desejos e aspirações: Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome (Sl 33,4).

Quem conhece o Senhor e é negligente em proclamar sua grandeza e santificar o seu nome, será considerado o menor no Reino dos Céus (Mt 5,19). Diz-se que santo é o seu nome porque, pelo seu poder ilimitado, transcende toda criatura e está infinitamente separado de todas as coisas criadas.

Acolhe Israel, seu servidor, fiel ao seu amor (Lc 1,54).

Israel é, com razão, denominado servidor do Senhor, porque, sendo obediente e humilde, foi por ele acolhido para ser salvo, como diz Oséias: Quando Israel era criança, eu já o amava (Os 11,1). Aquele que recusa humilhar-se não pode certamente ser salvo, nem dizer com o Profeta: Quem me protege e me ampara é meu Deus; é o Senhor quem sustenta a minha vida! (Sl 53,6). Mas, quem se fizer humilde como uma criança, esse é o maior no Reino dos Céus (cf. Mt 18,4).

Como havia prometido a nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos para sempre (Lc 1,55).

Trata-se da descendência de Abraão segundo o espírito e não segundo a carne, isto é, não apenas dos filhos segundo a natureza, mas de todos que seguiram o exemplo da sua fé, fossem eles circuncidados ou incircuncisos. Pois o próprio Abraão, ainda incircunciso, acreditou e isto lhe foi imputado como justiça.

A vinda do Salvador foi, portanto, prometida a Abraão e a seus filhos para sempre, isto é, aos filhos da promessa, dos quais se diz: Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa (Gl 3,29).

É com razão que, antes do nascimento do Senhor e de João, suas mães profetizam, para que, tendo o pecado começado pela mulher, os bens comecem igualmente por ela; e se foi pela sedução de uma só mulher que a morte foi introduzida no mundo, agora é pela profecia de duas mulheres que se anuncia ao mundo a salvação.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Preparando o Natal: Santo Ambrósio explica a visitação.

Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de Santo Ambrósio, bispo
 
(Lib. 2, 19. 22-23. 26-27: CCL 14, 39-42)
(Séc. IV)
 A visitação da Virgem Maria
Encontro de Maria e Isabel, Pórtico da Basílica da Visitação em Ein Kerem, Jerusalém, Israel.


O Anjo anunciara à Virgem Maria coisas misteriosas. Para fortalecer sua fé com um exemplo, anunciou-lhe a maternidade de uma mulher idosa e estéril, como prova de que é possível a Deus tudo que ele quer.
Logo ao ouvir a notícia, Maria dirigiu-se às montanhas, não por falta de fé na profecia ou falta de confiança na mensagem, nem por duvidar do exemplo dado, mas guiada pela felicidade de ver cumprida a promessa, levada pela vontade de prestar um serviço, movida pelo impulso interior de sua alegria.
Já plena de Deus, aonde ir depressa senão às alturas? A graça do Espírito Santo ignora a lentidão. Manifestam-se imediatamente os benefícios da chegada de Maria e da presença do Senhor, pois quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança exultou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1,41).
Notai como cada palavra está escolhida com perfeita precisão e propriedade: Isabel foi a primeira a ouvir a voz, mas João foi o primeiro a pressentir a graça; aquela ouviu segundo a ordem da natureza, este exultou em virtude do mistério. Ela percebeu a chegada de Maria, ele, a do Senhor; a mulher ouviu a voz da mulher, o menino sentiu a presença do Filho; elas proclamam a graça de Deus, eles realizam-na interiormente, iniciando no seio de suas mães o mistério de misericórdia; e, por um duplo milagre, as mães profetizam sob a inspiração de seus filhos.
 A criança exultou, a mãe ficou cheia do Espírito Santo. A mãe não se antecipou ao filho; mas estando o filho cheio do Espírito Santo, comunicou-o a sua mãe. João exultou; o espírito de Maria também exultou. A alegria de João se comunica a Isabel; quanto a Maria, porém, não nos é dito que recebesse então o Espírito, mas que seu espírito exultou. – Aquele que é incompreensível agia em sua mãe de modo incompreensível – Isabel recebe o Espírito Santo depois de conceber; Maria recebeu antes. Por isso, Isabel diz a Maria: Feliz és tu que acreditaste (cf. Lc 1,45).
 Felizes sois também vós, que ouvistes e acreditastes, pois toda alma que possui a fé concebe e dá à luz a Palavra de Deus e conhece suas obras.
Esteja em cada um de vós a alma de Maria para engrandecer o Senhor: em cada um esteja o espírito de Maria para exultar em Deus. Embora segundo a natureza haja uma só Mãe do Cristo, segundo a fé o Cristo é o fruto de todos; pois toda alma recebe o Verbo de Deus desde que, sem mancha e libertada do pecado, guarda a castidade com inteira pureza.
 Toda alma que alcança esta perfeição, engrandece o Senhor como a alma de Maria o engrandeceu e seu espírito exultou em Deus, seu Salvador.
 Na verdade, o Senhor é engrandecido, como lemos noutro lugar: Comigo engrandecei ao Senhor Deus (Sl 33,4). Não que a palavra humana possa acrescentar algo ao Senhor, mas porque ele é engrandecido em nós: a imagem de Deus é o Cristo e assim, quando alguém age com piedade e justiça, engrandece essa imagem de Deus, a cuja semelhança foi criado; e, engrandecendo-a, participa cada vez mais da grandeza divina.

O Shalom de Maria! Comentário de Evangelho de 21/12/12

O Shalom de Maria!

Evangelho do dia (Lc 1, 39-45):

39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45“Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”.
_________________________________________

Basílica da Visitação em Ein Kerem, Jerusalém, Israel.

Como a Virgem Maria no Evangelho de hoje se manifesta como primeira evagelizadora! Leva consigo o Verbo Encarnado de Deus, dentro de si, até sua prima Isabel. O "Shalom" de Maria a Isabel é pleno de Jesus! A paz de sua saudação comunica a Isabel a alegria que o mundo não pode dar. Tão intensa é a paz que vem de Maria e de Jesus que João exulta dentro do ventre de sua mãe! Como nós precisamos ser visitados por Maria nos nossos dias, como precisamos ouvir essa saudação/comunicação de Paz, da verdadeira Paz!

Quando o Anjo visitou Maria para fazer o anúncio da concepção virginal, explicou como se daria o mistério dizendo: "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus." (Lc 1, 35). Tal revelação nos permite refletir sobre a presença do Espírito Santo em Maria. Não acredito que a presença do Espírito seja simplesmente (como se fosse simples!) para realizar o milagre da concepção virginal, pois a presença do Espírito em Maria já a faz, de alguma forma, renovada pela Boa Nova do Salvador. Essa mulher cheia do Espírito e plena de Deus, comunica sua experiência, pois basta que sua voz chegue a Isabel com a saudação da paz para que ela e João também fiquem exultantes no Espírito Santo!

A experiência da presença de Deus se comunica! Não são necessários discursos, doutrinas, teses evangelizadoras, métodos. Tudo é feito numa simples saudação de Paz! A paz que vem de Deus e que possui Maria - afinal, um dos títulos messiânicos é Príncipe da Paz! - é comunicada a Isabel porque Maria vai ao seu encontro, deseja servi-la em suas necessidades e quer partilhar de sua alegria. O amor não se comunica com palavras, mas com a presença alegre e serviçal da Mãe de Deus! Isabel não se contém, o gesto de Maria toca tão profundo na sua alma que é impossível não exultar, e ela exclama: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! A resposta também não é calculada, mas é resultado da alegria de quem recebe em casa a própria Graça. Quem divide a casa com "benditos" participa de alguma forma de sua bênção, por isso Isabel se pergunta: Como posso merecer que a Mãe do meu Salvador me venha visitar? Não é por mérito que se recebe essa visita, é por benevolência.

Vejo duas atitudes para aprender dessas santas mulheres: primeiro de Maria, que portadora da graça não a retêm, mas a comunica na medida em que se propõe servir sua prima Isabel. De graça recebeu, de graça comunicou, como seu Filho Jesus ensinaria depois. Depois, de Isabel podemos aprender a acolhida alegre de Maria e de Jesus - pois ela reconhece o Salvador - , mas também a humildade de saber que recebemos mais do que merecemos. Que este maravilhoso encontro evangélico nos faça anunciadores da paz que vem de Deus, que nos faça dar do que temos e somos com mais generosidade, que nos faça acolher o Jesus que nos visita nos outros e perceber que tudo que recebemos de Deus é sempre mais do que realmente merecemos.

Shalom de Maria e de Jesus!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

São João da Cruz, rogai por nós!

São João da Cruz, Rogai por nós!

Do Cântico espiritual, de São João da Cruz, presbítero
(Red. B, str. 36-37, Edit. E. Pacho, S. Juan de la Cruz,
Obras completas, Burgos, 1982, p. 1124-1135)
(Sec. XVI)

Conhecimento do mistério escondido em Cristo Jesus
Embora os santos doutores tenham explicado muitos mistérios e maravilhas, e pessoas devotadas a esse estado de vida os conheçam, contudo, a maior parte desses mistérios está por ser enunciada, ou melhor, resta para ser entendida.

Por isso é preciso cavar fundo em Cristo, que se assemelha a uma mina riquíssima, contendo em si os maiores tesouros; nela por mais que alguém cave em profundidade, nunca encontra fim ou termo. Ao contrário, em toda cavidade aqui e ali novos veios de novas riquezas.

Por este motivo o apóstolo Paulo falou acerca de Cristo: Nele estão escondidos todos os
tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Cl 2, 3). A alma não pode ter acesso a estes tesouros, nem consegue alcançá-los se não houver antes atravessado e entrado na espessura dos trabalhos, sofrendo interna e externamente e sem ter primeiro recebido de Deus muitos benefícios intelectuais e sensíveis e sem prévio e contínuo exercício espiritual.

Tudo isto é, sem dúvida, insignificante; são meras disposições para as sublimes profundidades do conhecimento dos mistérios de Cristo, a mais alta sabedoria a que se pode chegar nesta vida.

Quem dera reconhecessem os homens ser totalmente impossível chegar à espessura das riquezas e da sabedoria de Deus! Importa antes entrar na espessura das labutas, suportar muitos sofrimentos, a ponto de renunciar à consolação e ao desejo dela. Com quanta razão a alma, sedenta da divina sabedoria, escolhe antes em verdade entrar na espessura da cruz.

Por isso, São Paulo exortava os efésios a não desanimarem nas tribulações, a serem fortíssimos, enraizados e fundados na caridade, para que pudessem compreender, com
todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento, a fim de serem cumulados até receber toda a plenitude de Deus (Ef 3, 17-19).

Já que a porta por onde se pode entrar até esta preciosa sabedoria é a cruz, e é porta estreita, muitos são os que cobiçam as delícias que por ela se alcançam; pouquíssimos os que desejam por ela entrar.
 

Evangelho do dia (14/12/12): O homem é um ser indisposto!

O homem é um ser indisposto!

Evangelho do dia (Mt 11, 16-19):

Naquele tempo, disse Jesus às multidões: 16“Com quem vou comparar esta geração? São como crianças sentadas nas praças, que gritam para os colegas, dizendo: 17‘Tocamos flauta e vós não dançastes. Entoamos lamentações e vós não batestes no peito!’
18Veio João, que não come nem bebe, e dizem: ‘Ele está com um demônio’. 19Veio o Filho do Homem, que come e bebe e dizem: ‘É um comilão e beberrão, amigo de cobradores de impostos e de pecadores’. Mas a sabedoria foi reconhecida com base em suas obras”.
_________________________________________

O que é preciso fazer para nos tirar do nosso comodismo?

No Evangelho de Hoje, Jesus faz uma comparação curiosa em relação a geração com quem conviveu. É uma geração incapaz de escutar o que não é o seu próprio jeito de pensar. Suas expectativas não podem ser frustradas, se tocam todos devem dançar, se reclamam querem pedido de perdão. Esperam que todos se encaixem nas suas expectativas. Talvez tenha sido essa a grande dificuldade para acolher o que Jesus tinha para dizer, pois sua mensagem não correspondia às suas expectativas. Para eles o Messias era um lider político, Jesus se mostrou Mestre; falavam de justiça, Jesus de misericórdia; se achavam santos, Jesus denunciava a hipocrisia de seu comportamento. Mas o mais triste disso tudo é a incapacidade de mudar sua forma de ver as coisas. Acho que aí está o dilema de Jesus: Como falar a quem não está disposto a escutar algo diferente do que pensa. Este ouvinte está sempre insatisfeito com o diferente. Tudo que não se encaixa na sua maneira de pensar é mau. João Batista é profeta no deserto, como é uma postura que não convém a eles dizem: tem um demônio! Jesus se aproxima dos que precisam da misericórdia, dos pecadores, como não convém a eles dizem: é glutão e beberrão! Não estão dispostos a reavaliar a sua posição, por isso riducularizam a verdade que incomoda.

Não estou dizendo com isso que tudo o que é diferente é necessáriamente bom, nem que a opinião dos outros deve necessariamente ser mais importante do que os valores que acreditamos. Estou dizendo que não devemos desprezar uma idéia ou um ponto de vista sem considerar sua validade. Jesus nem sequer teve chance de alcançar muitos corações, exatamente pela falta de abertura para ouvir o conteúdo de sua mensagem. Nós também não somos uma geração acolhedora. Rotulamos os outros para não termos que mudar. Criticamos os bons e os maus, assim podemos permanecer na nossa cômoda posição. O que reza é um santão, o que professa e testemunha a fé é um fanático, o que se preocupa conosco é um "entrão", o que estuda é nerd e assim rotulamos tudo e todos, sempre insatisfeitos com os outros porque não estamos dispostos a acolher os que são diferentes de nós. A verdade é que queremos que todos dancem da forma que queremos, pensem do mesmo modo que nós, gostem das mesmas coisas, e o que não for assim precisa mudar. Somos deuses e queremos tudo segundo nossa vontade soberana!

Como escapar dessa estrutura viciosa e desumana? Acho que precisamos superar a nossa indiferença em relação a tudo. Não somos o centro do universo, nem podemos delegar isso a outros, vivendo em função da vontade de terceiros. O mundo é teocêntrico, a vontade de Deus é a única que respeita nossa individualidade e dignidade, permitindo que tudo exista segundo sua verdade. Olhar tudo à partir de Deus, para olhar na verdade tudo e todos. Só Deus é capaz de nos mostrar quem somos e quem são os outros. Devemos purificar nossas opiniões na verdade que vem de Deus. É desafiante, mas libertador! Quando acolhemos a Deus, que é infinitamente maior do que nós, crescemos com Ele. Portanto, não sejamos como aquela geração do Evangelho, que por medo de mudar afastou até o Sumo Bem! Peçamos a Deus a graça do discernimento da verdade, para que quando ela se apresentar a nós, sejamos capazes de acolhê-la e amá-la mais do que nossas seguranças pessoais. Jesus conclui dizendo que a verdade se evidencia... No fim, suas obras sempre revelaram quem Ele é. As obras de Deus já nos convenceram, ou estamos esperando que o Messias se encaixe nos nossos moldes? Conhecemos a àrvore por seus frutos e "a sabedoria foi reconhecida com base em suas obras".

Paz!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Preparando o Natal: Você sabe a data do fim do mundo? Veja o que diz S. Efrém...

Preparando o Natal...
Detalhe do mosaico da Basílica da Transfiguração, no Monte Tabor

Do Comentário sobre o Diatéssaron, de Santo Efrém, diácono
(Cap. 18,15-17; SCh 121,325-328).
(Séc. IV)

Vigiai: Cristo virá de novo
Para impedir que os discípulos o interrogassem sobre o momento de sua vinda, disse-lhes Cristo: Aquela hora ninguém a conhece, nem os anjos nem o Filho. Não vos compete saber o tempo e o momento (cf. Mc 13,32-33). Ocultou-nos isso para que ficássemos vigilantes e cada um de nós pudesse pensar que esse acontecimento se daria durante a nossa vida. Se tivesse revelado o tempo de sua vinda, esta deixaria de ter interesse e não seria mais desejada pelos povos da época em que se manifestará. Ele disse que viria, mas não declarou o momento e por isso as gerações e todos os séculos o esperam ardentemente.
Embora o Senhor tenha dado a conhecer os sinais de sua vinda, não se vê exatamente o último deles, pois numa mudança contínua, esses sinais apareceram e passaram e, por outro lado, ainda perduram. Sua última vinda será igual à primeira.
Os justos e os profetas o desejavam, pensando que se manifestaria em seu tempo; do mesmo modo, cada um dos fiéis de hoje deseja recebê-lo em sua época, pois ele não disse claramente o dia em que viria. E isto sobretudo para ninguém pensar que está submetido a uma determinação e hora, ele que domina os números e os tempos. Como poderia estar oculto àquele que descreveu os sinais de sua vinda, o que ele próprio estabeleceu? O Senhor pôs em relevo esses sinais para que, desde o primeiro dia, os povos de todos os séculos pensassem que ele viria no próprio tempo deles.
Permanecei vigilantes porque, quando o corpo dorme, é a natureza que nos domina e nossa atividade é então dirigida, não por nossa vontade, mas pelos impulsos da natureza. E quando a alma está dominada por um pesado torpor, como por exemplo a pusilanimidade ou a tristeza, é o inimigo que a domina e a conduz, mesmo contra a sua vontade. Os impulsos dominam a natureza e o inimigo domina a alma.
Por isso, o Senhor recomendou ao homem a vigilância tanto da alma como do corpo: ao corpo, para que se liberte da sonolência; e à alma, para que se liberte da indolência e pusilanimidade. Assim diz a Escritura: Vigiai, justos (cf. 1Cor 15,34); e também: Despertei e ainda estou contigo (cf. Sl 138,18); e ainda: Não desanimeis (cf. Jo 16,33). Por isso não desanimamos no exercício do ministério que recebemos (2Cor 4,1).

Evangelho do dia 6 de dezembro: Ouvir e colocar em prática!

Ouvir e colocar em prática!

Evangelho do dia (Mt 7, 21.24-27):

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 24Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!” _________________________________________

Igreja de pedra do primado de Pedro, beira do mar da Galiléia.

No Evangelho de Hoje, as palavras de Jesus nos colocam diante de uma realidade nem sempre colocada no nosso campo de visão quando falamos da nossa religiosidade. Jesus nos coloca diante da aparência e da realidade. Os que vivem da aparência, são so que dizem "Senhor, Senhor". Me explico: estou falando das pessoas "super religiosas", que carrgem o seu "kit cristão" para todos os lados, mas que na hora de decidir a sua vida segundo a fé, são os primeiros a mostrar a sua falta de conversão. São os rezam seus terços, mas rotulam pessoas; comungam, às vezes diariamente, mas no segredo seguem cultivando seu pecado; que discursam publicamente sobre o Evangelho, mas dão conselhos mundanos aos que confiam na sua pseudo-fé. Estão visilvemente na Igreja, parecem "santões", mas não tem compromisso com o Evangelho. Quem já não ouviu alguns desses dizendo baixinho: a Igreja pensa isso, mas acho que de outra forma é melhor... Estes são os que DIZEM "Senhor, Senhor", mas que por sua duplicidade não entrarão no Reino dos Céus. Portanto, nem todo aquele que está no banco da frente de nossas Igrejas, nem todo aquele que está em destaque em nossa vida eclesial é necessariamente aquele que entrará no Reino. Isso é triste, pois nem sempre o que os nossos olhos vêem corresponde a realidade. Isso não quer dizer que não tenhamos pessoas maravilhosas vivendo a sua fé de forma coerente e santa, ok? Não sejamos pessimistas, mas sim realistas. O ideal seria que o nosso exterior correspondesse ao nosso interior, não é verdade?

Bom, dito isso, Jesus prosegue sua reflexão com os discípulos sobre o OUVIR E COLOCAR EM PRÁTICA, se utilizando da bela alegoria da construção da casa. A vida cristã é como uma construção e o fundamento desta construção é a acolhida da Palavra e a aplicação dela na vida. Simples assim. Muitos escutam e até gostam do que escutam, mas quantos são os que colocam em prática? Hoje Jesus diz que o fundamento da nossa vida está em praticar o que escutamos d'Ele. Mais, Ele diz que quem procede assim é o homem coerente, PRUDENTE, ou seja, que pesou a sua ação segundo os valores evangélicos antes de realizá-la. Não erra quem vive assim! Por isso, esse tipo de pessoa é capaz de lidar com qualquer adversidade que a vida apresenta, pois tem fundamentos para isso. O sem juízo, ou seja, o LOUCO, é o que escuta e não pratica. É louco porque decidiu enfrentar a construção da vida sem fundamentos, baseando-se na conveniência das situações para agir. É claro que diante das dificuldades ele vai cair, pois não está preparado para lidar com elas.

Penso então em que tipo de construtores nós somos... Você está se preocupando com que a sua vida esteja sustentada por fundamentos sólidos? Está preocupado com a coerência entre o interior e o exterior? Digo isso porque vejo todos os dias multidões gritando "Senhor, Senhor" em todos os cantos do planeta, e isso está bem, pois temos realmente que recorrer a Ele em nossas necessidades, mas quantos estão de fato procurando fazer o que Ele diz? Senhor, dai-nos a graça de ouvir a tua Palavra, mas mais que isso, Senhor, dai-nos a fortaleza suficiente para colocá-la em prática!

Paz!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Você já ouviu falar da vinda intermediária de Jesus?

Já sabemos da primeira vinda do Senhor e conhecemos pelo anúncio que virá uma segunda vez, mas vocês conhecem a vinda intermediária? Na preparação para o Natal vamos refletir com S. Bernardo:

Dos Sermões de São Bernardo, abade
(Sermo 5 in Adventu Domini, 1-3: Opera omnia,
Edit. cisterc. 4 [1966], 188-190)
(Séc. XII)

O Verbo de Deus virá a nós
Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc 3,6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória.
Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última; na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.
Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo 14,23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Eclo 15,1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl 118,11).
Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.
Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste (1Cor 15,49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a humanidade e atingiu o homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o senhor do homem todo, porque ele o criou, redimiu e o glorificará.

Evangelho do dia: Tenho compaixão da multidão!

Tenho compaixão da multidão!

Evangelho do dia (Mt 15, 29-37):

Naquele tempo, Jesus foi para as margens do mar da Galileia, subiu a montanha, e sentou-se. Numerosas multidões aproximaram-se dele, levando consigo coxos, aleijados, cegos, mudos, e muitos outros doentes. Então os colocaram aos pés de Jesus. E ele os curou. O povo ficou admirado, quando viu os mudos falando, os aleijados sendo curados, os coxos andando e os cegos enxergando. E glorificaram o Deus de Israel.
Jesus chamou seus discípulos e disse: “Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que está comigo, e nada tem para comer. Não quero mandá-los embora com fome, para que não desmaiem pelo caminho”.
Os discípulos disseram: “Onde vamos buscar, neste deserto, tantos pães para saciar tão grande multidão?” Jesus perguntou: “Quantos pães tendes?” Eles responderam: “Sete, e alguns peixinhos”. E Jesus mandou que a multidão se sentasse pelo chão. Depois pegou os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os, e os dava aos discípulos, e os discípulos, às multidões. Todos comeram, e ficaram satisfeitos; e encheram sete cestos com os pedaços que sobraram.
_________________________________________

Margens do mar da Galiléia, próximo a Cafarnaum
Precisamos diante do Evangelho de hoje nos deter na compaixão de Jesus. As curas e a multiplicação dos pães brotam da compaixão d'Ele. Mas você sabe o que é compaixão? No latim o verbo "patire" significa sofrer, por isso falamos da Paixão de Cristo quando nos referimos ao seu percurso de sofrimento até a morte de cruz. A compaixão seria um "sofrer com", ou seja, um entrar em relação com o outro de tal forma que se torne possível participar do seu sofrimento solidariamente. Olhando para o texto de hoje podemos ver o quanto é belo o movimento de Jesus: Ele entra na experiência do coxo e participa do seu sofrimento, entra na dos cegos, dos mudos, dos doentes que são trazidos a Ele. Fico imaginado com que profundidade o Homem-Deus pode fazer essa experiência de comunhão... Experimentar o que é a cegueira à partir do cego, a mudez à partir do mudo, a doença à partir do doente. Jesus sofre no sofrimento deles!

Mas a compaixão não consiste só nessa comunhão interpessoal de vida, ela é sentimento que impele àquele que sente a não permanecer indiferente ao outro, impele a dar daquilo que se tem. Por isso todos são curados no Evangelho de hoje, porque a compaixão de Jesus faz com que Ele não permaneça indiferente, faz com que Ele se envolva diretamente no problema, faz com que o Poder Deus se manifeste como cura. Eler quer que os outros sintam o que Ele sente! É um intercâmbio: Enquanto o enfermo comunica sua dor e Jesus participa dela, também o enfermo que vai esperançoso até o Cristo experimenta de sua Pessoa Divina e sai dali modificado, pois o Senhor também é capaz de comunicar quem Ele é. Porque levaram até Ele os seus sofrimentos, receberam d'Ele a graça!

Jesus está tão movido pela compaixão que não a retem para si, mas de alguma forma precisa comunicá-la aos outros e nisso os discípulos tem um papel interessante a desenvolver aqui. A compaixão transborda! Ele a coloca para fora para que os discípulos compreendam: "Tenho compaixão da multidão", diz Jesus! O sentimento de amor de Deus sai do específico do doente diante d'Ele e se estende a toda multidão, mas para que a graça dessa compaixão alcance a todos, Ele quer que os discípulos intervenham. É bonito: "vamos alimentá-los! O que é que vocês têm?", provoca Jesus. Os discípulos assustados respondem que com o que eles têm não dá para atender a todos, mas Jesus atende a todos à partir do que Eles têm. Essa é a maravilha deste texto, pois Deus se utiliza do pouco que temos para multiplicar a sua misericórdia, a sua compaixão. Ele quer alcançar a todos, entender cada dor, suprir cada necessidade com o seu amor, mas deseja que seus discípulos de alguma forma participem desse processo com Ele. Quer que recebamos de sua misericórdia, mas também que sejamos misericordiosos com Ele.

Obrigado Senhor pela tua compaixão, obrigado porque nos chamas a ser compassivos contigo...
Paz!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Na preparação para o Natal, podemos meditar sobre um maravilhoso intercâmbio!

Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo
(Or. 45,9.22.26.28: PG 36,634.635.654.658-659.662)
(Séc. IV)

Ó admirável intercâmbio!
O próprio Filho de Deus, que existe desde toda a eternidade, o invisível, o incompreensível, incorpóreo, princípio que procede do princípio, a luz nascida da luz, a fonte da vida e da imortalidade, a expressão do arquétipo, divino, o selo inamovível, a imagem perfeita, a palavra e o pensamento do Pai, vem em ajuda da criatura feita à sua imagem, e por amor do homem se faz homem. Para purificar aqueles de quem se tornou semelhante, assume tudo o que é humano, exceto o pecado. Foi concebido por uma Virgem, já santificada pelo Espírito Santo no corpo e na alma, para honrar a maternidade e ao mesmo tempo exaltar a excelência da virgindade; e assumindo a humanidade sem deixar de ser Deus, uniu em si mesmo duas realidades contrárias, a saber, a carne e o espírito. Uma delas conferiu a divindade, a outra recebeu-a.
Aquele que enriquece os outros torna-se pobre. Aceita a pobreza de minha condição humana para que eu possa receber os tesouros de sua divindade. Aquele que possui tudo em plenitude, aniquila-se a si mesmo; despoja-se de sua glória por algum tempo, para que eu participe de sua plenitude.
Quais são essas riquezas da bondade? Qual é esse mistério que me concerne? Recebi a imagem divina mas não soube conservá-la. Ele assumiu a minha condição humana para restaurar a perfeição dessa imagem e dar a imortalidade a esta minha condição mortal. Assim estabelece conosco uma segunda aliança, muito mais admirável que a primeira.
Convinha que a santidade fosse dada ao homem mediante a humanidade assumida por Deus. Convinha que ele triunfasse desse modo sobre o tirano que nos subjugava, para nos restituir a liberdade e reconduzir-nos a si através de seu Filho, nosso Mediador; e Cristo realizou, de fato, esta obra redentora para a glória de seu Pai, que era o objetivo de todas as suas ações.
O bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas, veio ao encontro da que estava perdida, procurando-a pelos montes e colinas onde tu sacrificavas aos ídolos; tendo-a encontrado, tomou-a sobre seus ombros – os mesmos que carregaram a cruz – reconduzindo-a à vida eterna.
Depois daquela tênue lâmpada do Precursor, veio a Luz claríssima de Cristo; depois da voz, veio a Palavra; depois do amigo do esposo, o Esposo. O Senhor veio depois daquele que lhe preparou um povo perfeito, predispondo os homens, por meio da água purificadora, para receberem o batismo do Espírito.
Foi necessário que Deus se fizesse homem e morresse, para que tivéssemos a vida. Morremos com ele para sermos purificados; ressuscitamos com ele porque com ele morremos. Fomos glorificados com ele, porque com ele ressuscitamos.

Quero ser pequenino!

 Quero ser Pequenino!
Evangelho do dia (Lc 10, 21-24):

Naquele momento Jesus exultou no Espírito Santo e disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Jesus voltou-se para os discípulos e disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir”.
________________________________

Caros amigos, diante de Deus precisamos ser pequeninos. Por mais inteligência e capacidade que Ele nos tenha dado, o verdadeiro sábio é sempre um aprendiz, o verdadeiro mestre é sempre um discípulo, porque um só é O Sábio, um só é O Mestre, Ele é O Pastor. Portanto o que hoje ouvimos na exultação de Jesus deve fazer escola no nosso coração e no nosso entendimento: O Senhor louva o Pai porque a Revelação é dada a quem se faz pequeno!

As vezes estamos muito seguros de nossas opiniões, certos de nossos motivos, firmes nas nossas convicções de tal forma que nos tornamos seguros demais para consultar os outros ou a Deus. Essa estrada é perigosa, porque nos leva ao erro mais cedo ou mais tarde. Estou aprendendo que a melhor certeza brota da adesão filial aos designios de Deus, que fala conosco como Pai que ensina seus filhos. Como quero me fazer mais pequenino... Que possa exultar na exultação do Cristo, por me reconhecer entre os que são pequenos o suficiente para acolher a grandeza de Deus.

Paz!