sexta-feira, 31 de maio de 2013

Na festa da Visitação, São Beda nos explica a importância do Magnificat!

Visitação de Nossa Senhora:

Das Homilias de São Beda, o Venerável, presbítero
 
(Lib. 1,4: CCL 122,25-26.30)   (Séc.VIII)
 
Maria engrandece o Senhor que age nela
            Minha alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,46). Com estas palavras, Maria reconhece, em primeiro lugar, os dons que lhe foram especialmente concedidos; em seguida, enumera os benefícios universais com que Deus favorece continuamente o gênero humano.
            Engrandece o Senhor a alma daquele que consagra todos os sentimentos da sua vida interior ao louvor e ao serviço de Deus; e, pela observância dos mandamentos, revela pensar sempre no poder da majestade divina. Exulta em Deus, seu Salvador, o espírito daquele que se alegra apenas na lembrança de seu Criador, de quem espera a salvação eterna.
            Embora estas palavras se apliquem a todas as almas santas, adquirem contudo a mais plena ressonância ao serem proferidas pela santa Mãe de Deus. Ela, por singular privilégio, amava com perfeito amor espiritual aquele cuja concepção corporal em seu seio era a causa de sua alegria.
            Com toda razão pôde ela exultar em Jesus, seu Salvador, com júbilo singular, mais do que todos os outros santos, porque sabia que o autor da salvação eterna havia de nascer de sua carne por um nascimento temporal; e sendo uma só e mesma pessoa, havia de ser ao mesmo tempo seu Filho e seu Senhor.
            O Poderoso fez em mim maravilhas, e santo é o seu nome! (Lc 1,49). Maria nada atribui a seus méritos, mas reconhece toda a sua grandeza como dom daquele que, sendo por essência poderoso e grande, costuma transformar os seus fiéis,pequenos e fracos, em fortes e grandes.
            Logo acrescentou: E santo é o seu nome! Exorta assim os que a ouviam, ou melhor, ensinava a todos os que viessem a conhecer suas palavras, que pela fé em Deus e pela invocação do seu nome também eles poderiam participar da santidade divina e da verdadeira salvação. É o que diz o Profeta: Então, todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo (Jl 3,5). É precisamente este o nome a que Maria se refere ao dizer: Exulta meu espírito em Deus, meu Salvador.
            Por isso, se introduziu na liturgia da santa Igreja o costume belo e salutar, de cantarem todos, diariamente, este hino na salmodia vespertina. Assim, que o espírito dos fiéis, recordando frequentemente o mistério da encarnação do Senhor, se entregue com generosidade ao serviço divino e, lembrando-se constantemente dos exemplos da Mãe de Deus, se confirme na verdadeira santidade. E pareceu muito oportuno que isto se fizesse na hora das Vésperas, para que nossa mente fatigada e distraída ao longo do dia por pensamentos diversos, encontre o recolhimento e a paz de espírito ao aproximar-se o tempo do repouso.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Devemos fazer o bem sem olhar a quem...

Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo

(Oratio 14, De pauperum amore, 23-24:PG35 889-890)
(Séc.IV)

Manifestemos uns para com os outros
a bondade do Senhor
Considera de onde te vem a existência, a respiração, a inteligência, a sabedoria, e, acima de tudo, o conhecimento de Deus, a esperança do reino dos céus e a contemplação da glória que, no tempo presente, é ainda imperfeita como num espelho e em enigma, mas que um dia haverá de ser mais plena e mais pura. Considera de onde te vem a graça de seres filho de Deus, herdeiro com Cristo e, falando com mais ousadia, de teres também sido elevado à condição divina. De onde e de quem vem tudo isso?

Ou ainda, – se quisermos falar de coisas menos importantes e que podemos ver com os nossos olhos – quem te concedeu a felicidade de contemplar a beleza do céu, o curso do sol, a órbita da lua, a multidão dos astros e aquela harmonia e ordem que se manifestam em tudo isso como uma lira afinada?

Quem te deu as chuvas, as lavouras, os alimentos, as artes, a morada, as leis, a sociedade, a vida tranqüila e civilizada, a amizade e a alegria da vida familiar?

De onde te vem poderes dispor dos animais, os domésticos para teu serviço e os outros para teu alimento?

Quem te constituiu senhor e rei de todas as coisas que há na face da terra?

E, porque não é possível enumerar uma a uma todas as coisas, pergunto finalmente: quem deu ao homem tudo aquilo que o torna superior a todos os outros seres vivos?

Porventura não foi Deus? Pois bem, agora, o que ele te pede em compensação por tudo, e acima de tudo, não é o teu amor para com ele e para com o próximo? Sendo tantos e tão grandes os dons que recebemos ou esperamos dele, não nos envergonharemos de não lhe oferecer nem mesmo esta única retribuição que pede, isto é, o amor? E se ele, embora sendo Deus e Senhor, não se envergonha de ser chamado nosso Pai, poderíamos nós fechar o coração aos nossos irmãos?

De modo algum, meus irmãos e amigos, de modo algum sejamos maus administradores dos bens que nos foram concedidos pela graça divina, a fim de não ouvirmos a repreensão de Pedro: “Envergonhai-vos, vós que vos apoderais do que não é vosso; imitai a justiça de Deus e assim ninguém será pobre”.

Não nos preocupemos em acumular e conservar riquezas, enquanto outros padecem
necessidade, para não merecermos aquelas duras e ameaçadoras palavras do profeta Amós: Tomai cuidado, vós que andais dizendo: “Quando passará o mês para vendermos; e o sábado, para abrirmos nossos celeiros?” (cf. Am 8,5).

Imitemos aquela excelsa e primeira lei de Deus, que faz chover sobre os justos e os pecadores e faz o sol igualmente levantar-se para todos; que oferece aos animais que vivem na terra a extensão dos campos, as fontes, os rios e as florestas; que dá às aves a amplidão dos céus, e aos animais aquáticos, a vastidão das águas; que proporciona a todos, liberalmente, os meios necessários para a sua subsistência, sem restrições, sem condições, sem fronteiras; que põe tudo em comum, à disposição de todos eles, com abundância e generosidade, de modo que nada falte a ninguém. Assim procede Deus para com as suas criaturas, a fim de conceder a cada um os bens de que necessita segundo a sua natureza e dignidade, e manifestar a todos a riqueza da sua bondade.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Papa Leão nos ensina um caminho para a purificação espiritual...

Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 6 de Quadragesima, 1-2: PL 54,285-287)
(Séc. V)

A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia
Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). À própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças.

O retorno, porém, desses dias.que os mistérios da salva­ção humana marcaram de modo mais especial e que prece­dem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos prepa­remos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.

Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos.

É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condi­ção mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da reden­ção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado.

Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzin­do os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado.

A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que se­jam os recursos de cada um.

Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas tam­bém pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se com­padece do sofrimento alheio.

São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de es­molas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quaresma: São Clemente nos convida à penitência!

Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, papa

(Cap. 7,4-8,3; 8,5-9,1; 13,1-4; 19,2: Funk 1,71-73.77-79.87)           (Sec. I)

Fazei penitência
Fixemos atentamente o olhar no sangue de Cristo e compreendamos quanto é precioso aos olhos de Deus, seu Pai, esse sangue que, derramado para nossa salvação, ofereceu ao mundo inteiro a graça da penitência.

Percorramos todas as épocas do mundo e verificaremos que em cada geração o Senhor concedeu o tempo favorável da penitência a todos os que a ele quiseram converter-se. Noé proclamou a penitência, e todos que o escutaram foram salvos. Jonas anunciou a ruína aos ninivitas, mas eles, fazendo penitência de seus pecados, reconciliaram-se com Deus por suas súplicas e alcançaram a salvação, apesar de não pertencerem ao povo de Deus.

Inspirados pelo Espírito Santo, os ministros da graça de Deus pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com juramento: Pela minha vida, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que mude de conduta (cf. Ez 33,11); e acrescentou esta sentença cheia de bondade: Deixa de praticar o mal, ó Casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: "Ainda que vossos pecados subam da terra até o céu, ainda que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais negros que o cilício, se voltardes para mim de todo o coração e disserdes: 'Pai', eu vos tratarei como um povo santo e ouvirei as vossas súplicas” (cf. Is 1,18; 63,16; 64,7; Jr 3,4; 31,9).

Querendo levar à penitência todos aqueles que amava, o Senhor confirmou esta sentença com sua vontade todo-poderosa.

Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte.

Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo: Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte com sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o e praticando o direito e justiça (cf. Jr 9,22-23; ICor 1,31).

Antes de mais nada, lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus, quando exortava à benevolência e à longanimidade: Sede misericordiosos, e alcançareis misericórdia; perdoai, e sereis perdoados; como tratardes o próximo, do mesmo modo sereis tratados; dai, e vos será dado; não julgueis, e não sereis julgados; fazei o bem, e ele também vos será feito; com a medida com que medirdes, vos será medido (cf. Mt 5,7; 6,14; 7,1.2).

Observemos fielmente este preceito e estes mandamen­tos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Pois eis o que diz o
texto sagrado: Para quem hei de olhar, senão para o manso e humilde, que treme ao ouvir minhas palavras ? (cf. Is 66,2).

Tendo assim participado de muitas, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a paz. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mensagem do Papa para a Quaresma

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2013
 

Crer na caridade suscita caridade  
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (
1 Jo 4, 16)  

Queridos irmãos e irmãs!
A celebração da Quaresma, no contexto do Ano da fé, proporciona-nos uma preciosa ocasião para meditar sobre a relação entre fé e caridade: entre o crer em Deus, no Deus de Jesus Cristo, e o amor, que é fruto da acção do Espírito Santo e nos guia por um caminho de dedicação a Deus e aos outros.
1. A fé como resposta ao amor de Deus
Na minha primeira Encíclica, deixei já alguns elementos que permitem individuar a estreita ligação entre estas duas virtudes teologais: a fé e a caridade. Partindo duma afirmação fundamental do apóstolo João: «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16), recordava que, «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus caritas est, 1). A fé constitui aquela adesão pessoal - que engloba todas as nossas faculdades - à revelação do amor gratuito e «apaixonado» que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. O encontro com Deus Amor envolve não só o coração, mas também o intelecto: «O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no acto globalizante do amor. Mas isto é um processo que permanece continuamente a caminho: o amor nunca está "concluído" e completado» (ibid., 17). Daqui deriva, para todos os cristãos e em particular para os «agentes da caridade», a necessidade da fé, daquele «encontro com Deus em Cristo que suscite neles o amor e abra o seu íntimo ao outro, de tal modo que, para eles, o amor do próximo já não seja um mandamento por assim dizer imposto de fora, mas uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor» (ibid., 31). O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor - «caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14) - , está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo (cf. ibid., 33). Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de ser amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus.
«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! (...) A fé, que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz – fundamentalmente, a única - que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir» (ibid., 39). Tudo isto nos faz compreender como o procedimento principal que distingue os cristãos é precisamente «o amor fundado sobre a fé e por ela plasmado» (ibid., 7).
2. A caridade como vida na fé
Toda a vida cristã consiste em responder ao amor de Deus. A primeira resposta é precisamente a fé como acolhimento, cheio de admiração e gratidão, de uma iniciativa divina inaudita que nos precede e solicita; e o «sim» da fé assinala o início de uma luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá sentido pleno a toda a nossa vida. Mas Deus não se contenta com o nosso acolhimento do seu amor gratuito; não Se limita a amar-nos, mas quer atrair-nos a Si, transformar-nos de modo tão profundo que nos leve a dizer, como São Paulo: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (cf. Gl 2, 20).
Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n'Ele e como Ele; só então a nossa fé se torna verdadeiramente uma «fé que actua pelo amor» (Gl 5, 6) e Ele vem habitar em nós (cf. 1 Jo 4, 12).
A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1 Tm 2, 4); a caridade é «caminhar» na verdade (cf. Ef 4, 15). Pela fé, entra-se na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se esta amizade (cf. Jo 15, 14-15). A fé faz-nos acolher o mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, 13-17). Na fé, somos gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22). A fé faz-nos reconhecer os dons que o Deus bom e generoso nos confia; a caridade fá-los frutificar (cf. Mt 25, 14-30).
3. O entrelaçamento indissolúvel de fé e caridade
À luz de quanto foi dito, torna-se claro que nunca podemos separar e menos ainda contrapor fé e caridade. Estas duas virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver entre elas um contraste ou uma «dialéctica». Na realidade, se, por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o activismo moralista.
A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos como o zelo dos Apóstolos pelo anúncio do Evangelho, que suscita a fé, está estreitamente ligado com a amorosa solicitude pelo serviço dos pobres (cf. At 6, 1-4). Na Igreja, devem coexistir e integrar-se contemplação e acção, de certa forma simbolizadas nas figuras evangélicas das irmãs Maria e Marta (cf. Lc 10, 38-42). A prioridade cabe sempre à relação com Deus, e a verdadeira partilha evangélica deve radicar-se na fé (cf. Catequese na Audiência geral de 25 de Abril de 2012). De facto, por vezes tende-se a circunscrever a palavra «caridade» à solidariedade ou à mera ajuda humanitária; é importante recordar, ao invés, que a maior obra de caridade é precisamente a evangelização, ou seja, o «serviço da Palavra». Não há acção mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana. Como escreveu o Servo de Deus Papa Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio, o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento (cf. n. 16). A verdade primordial do amor de Deus por nós, vivida e anunciada, é que abre a nossa existência ao acolhimento deste amor e torna possível o desenvolvimento integral da humanidade e de cada homem (cf. Enc. Caritas in veritate, 8).
Essencialmente, tudo parte do Amor e tende para o Amor. O amor gratuito de Deus é-nos dado a conhecer por meio do anúncio do Evangelho. Se o acolhermos com fé, recebemos aquele primeiro e indispensável contacto com o divino que é capaz de nos fazer «enamorar do Amor», para depois habitar e crescer neste Amor e comunicá-lo com alegria aos outros.
A propósito da relação entre fé e obras de caridade, há um texto na Carta de São Paulo aos Efésios que a resume talvez do melhor modo: «É pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque nós fomos feitos por Ele, criados em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas acções que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (2, 8-10). Daqui se deduz que toda a iniciativa salvífica vem de Deus, da sua graça, do seu perdão acolhido na fé; mas tal iniciativa, longe de limitar a nossa liberdade e responsabilidade, torna-as mais autênticas e orienta-as para as obras da caridade. Estas não são fruto principalmente do esforço humano, de que vangloriar-se, mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em abundância. Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos: estas duas virtudes implicam-se mutuamente. A Quaresma, com as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus e a participação nos Sacramentos e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da esmola.
4. Prioridade da fé, primazia da caridade
Como todo o dom de Deus, a fé e a caridade remetem para a acção do mesmo e único Espírito Santo (cf. 1 Cor 13), aquele Espírito que em nós clama:«Abbá! – Pai!» (Gl 4, 6), e que nos faz dizer: «Jesus é Senhor!» (1 Cor 12, 3) e «Maranatha! – Vem, Senhor!» (1 Cor 16, 22; Ap 22, 20).
Enquanto dom e resposta, a fé faz-nos conhecer a verdade de Cristo como Amor encarnado e crucificado, adesão plena e perfeita à vontade do Pai e infinita misericórdia divina para com o próximo; a fé radica no coração e na mente a firme convicção de que precisamente este Amor é a única realidade vitoriosa sobre o mal e a morte. A fé convida-nos a olhar o futuro com a virtude da esperança, na expectativa confiante de que a vitória do amor de Cristo chegue à sua plenitude. Por sua vez, a caridade faz-nos entrar no amor de Deus manifestado em Cristo, faz-nos aderir de modo pessoal e existencial à doação total e sem reservas de Jesus ao Pai e aos irmãos. Infundindo em nós a caridade, o Espírito Santo torna-nos participantes da dedicação própria de Jesus: filial em relação a Deus e fraterna em relação a cada ser humano (cf. Rm 5, 5).
A relação entre estas duas virtudes é análoga à que existe entre dois sacramentos fundamentais da Igreja: o Baptismo e a Eucaristia. O Baptismo (sacramentum fidei) precede a Eucaristia (sacramentum caritatis), mas está orientado para ela, que constitui a plenitude do caminho cristão. De maneira análoga, a fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada por ela. Tudo inicia do acolhimento humilde da fé («saber-se amado por Deus»), mas deve chegar à verdade da caridade («saber amar a Deus e ao próximo»), que permanece para sempre, como coroamento de todas as virtudes (cf. 1 Cor 13, 13).
Caríssimos irmãos e irmãs, neste tempo de Quaresma, em que nos preparamos para celebrar o evento da Cruz e da Ressurreição, no qual o Amor de Deus redimiu o mundo e iluminou a história, desejo a todos vós que vivais este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no seu próprio circuito de amor ao Pai e a cada irmão e irmã que encontramos na nossa vida. Por isto elevo a minha oração a Deus, enquanto invoco sobre cada um e sobre cada comunidade a Bênção do Senhor!
Vaticano, 15 de Outubro de 2012

 
BENEDICTUS PP. XVI

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Fidelidade à cruz em todos os momentos...

Das Catequeses de São Cirilo, bispo de Jerusalém

(Cat. 13,1.3.6.23:PG33,771-774.779.802)          (Séc.IV)

Seja-te a cruz um gozo, mesmo em tempo de perseguição
Toda ação de Cristo é glória da Igreja católica. Contudo, a glória das glórias é a cruz.
Paulo, muito bem instruído, disse: Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Cristo.

Foi uma coisa digna de admiração que ele tenha recuperado a vista àquele cego de
nascença em Siloé. Mas o que é isto em vista dos cegos do mundo inteiro? Foi
estupendo e acima das forças da natureza ressuscitar Lázaro após quatro dias de morto. Mas a um só foi dada essa graça; e os outros todos, em toda a terra, mortos pelo pecado? Foi maravilhoso alimentar com cinco pães, qual fonte, a cinco mil homens. Mas e
aqueles que em toda a parte sofrem a fome da ignorância? Foi magnífico libertar a
mulher ligada há dezoito anos por Satanás; mas que é isto se considerarmos a todos nós, presos pelas cadeias de nossos pecados?

Pois bem; a glória da cruz encheu de luz os que estavam cegos pela ignorância, libertou
os cativos do pecado, remiu o universo inteiro.

Não nos envergonhemos da cruz do Salvador. Muito pelo contrário, dela tiremos glória.
Pois a palavra da cruz é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, para nós, no
entanto, é salvação. Para aqueles que se perdem é loucura; para nós, que fomos salvos, é
força de Deus. Não era um simples homem quem por nós morria; era o Filho de Deus
feito homem.

Outrora o cordeiro, morto segundo a instituição mosaica, afastava para longe o
devastador. Porém, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, não poderá muito
mais libertar dos pecados? O sangue de um cordeiro irracional manifestava a salvação.
Sendo assim, não trará muito maior salvação o sangue do Unigênito?

O Cordeiro não entregou a vida coagido, nem foi imolado à força, mas por sua plena
vontade. Ouve o que ele disse: Tenho o poder de entregar minha vida; e tenho o poder
de retomá-la. Chegou, portanto, com toda a liberdade à paixão, alegre com a excelente
obra, jubiloso pela coroa, felicitando-se com a salvação do homem. Não se envergonhou
da cruz pois trazia a salvação para o mundo. Não era um homem qualquer aquele que
padecia, era o Deus encarnado a combater pelo prêmio da obediência.

Por conseguinte, não te seja a cruz um gozo apenas em tempo de paz. Também em
tempo de perseguição guarda a mesma fidelidade, não aconteça seres tu amigo de Jesus
durante a paz e inimigo durante a guerra. Agora recebes a remissão dos pecados e és
enriquecido com os generosos dons espirituais de teu rei. Rebentando a guerra, luta por
ele valorosamente.

Jesus foi crucificado em teu favor, ele não tinha pecado. Tu, por tua vez, não te deixarás crucificar por aquele que em teu benefício foi pregado na cruz? Não estarás fazendo nenhum favor porque primeiro recebeste. Entretanto, mostras tua gratidão pagando a dívida a quem por ti foi crucificado no Gólgota.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Paulo Miki e seus companheiros mártires!


Da História do martírio dos santos Paulo Miki e seus companheiros, escrita por um
autor do tempo

(Cap.14,109-110:Acta Sanctorum Febr. 1, 769)

(Séc.XVI)

Sereis minhas testemunhas
Quando as cruzes foram levantadas, foi coisa admirável ver a constância de todos, à
qual eram exortados pelo Padre Passos e pelo Padre Rodrigues. O Padre Comissário
permaneceu sempre de pé, sem se mexer e com os olhos fixos no céu. O Irmão
Martinho cantava salmos de ação de graças à bondade divina, aos quais acrescentava o
versículo: Em vossas mãos, Senhor (Sl 30,6). Também o Irmão Francisco Blanco dava
graças a Deus com voz clara. O Irmão Gonçalo recitava em voz alta o Pai-nosso e a
Ave-Maria.

O nosso Irmão Paulo Miki, vendo-se colocado diante de todos no mais honroso púlpito
que nunca tivera, começou por declarar aos presentes que era japonês e pertencia à
Companhia de Jesus, que ia morrer por haver anunciado o Evangelho e que dava graças
a Deus por lhe conceder tão imenso benefício. E por fim disse estas palavras: “Agora
que cheguei a este momento de minha vida, nenhum de vós duvidará que eu queira
esconder a verdade. Declaro-vos, portanto, que não há outro caminho para a salvação
fora daquele seguido pelos cristãos. E como este caminho me ensina a perdoar os
inimigos e os que me ofenderam, de todo o coração perdôo o Imperador e os
responsáveis pela minha morte, e lhes peço que recebam o batismo cristão.

Em seguida, voltando os olhos para os companheiros, começou a encorajá-los neste
momento extremo. No rosto de todos transparecia uma grande alegria, mas era no de
Luís que isto se percebia de modo mais nítido. Quando um cristão gritou que em breve
estaria no paraíso, ele fez com as mãos e o corpo um gesto tão cheio de contentamento
que os olhares dos presentes se fixaram nele.
Antônio estava ao lado de Luís, com os olhos voltados para o céu. Depois de invocar os
santíssimos nomes de Jesus e de Maria, entoou o salmo Louvai, louvai, ó servos do
Senhor (Sl 112,1), que tinha aprendido na escola de catequese em Nagasáki; de fato,
durante o catecismo, costumavam ensinar alguns salmos às crianças.

Alguns repetiam com o rosto sereno: “Jesus, Maria”; outros exortavam os presentes a
levarem uma vida digna de cristãos; e por estas e outras ações semelhantes
demonstravam estar prontos para a morte.

Finalmente os quatro carrascos começaram a tirar as espadas daquelas bainhas que os
japoneses costumam usar. Vendo cena tão horrível, os fiéis gritavam: “Jesus! Maria!”
Seguiram-se lamentos tão sentidos de tocar os próprios céus. Ferindo-os com um
primeiro e um segundo golpe, em pouco tempo os carrascos mataram a todos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A verdadeira beleza de Santa Águeda!

Do Sermão na festa de Santa Águeda, de São Metódio da Sicília, bispo

(Analecta Bollandiana,68,76-78)

(Séc. IX)

Dom que nos foi concedido por Deus,
verdadeira fonte da bondade
A comemoração do aniversário de Santa Águeda nos reúne a todos neste lugar, como se
fôssemos um só. Bem conheceis, meus ouvintes, o combate glorioso desta mártir, uma
das mais antigas e ao mesmo tempo tão recente que parece estar agora mesmo lutando e vencendo, através dos divinos milagres com os quais diariamente é coroada e ornada.

A virgem Águeda nasceu do Verbo de Deus imortal e seu único Filho, que também
padeceu a morte por nós. Com efeito, João, o teólogo, assim se exprime: A todos
aqueles que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo
1,12).

É uma virgem esta mulher que nos convidou para o sagrado banquete; é a mulher
desposada com um único esposo, Cristo, para usar as mesmas expressões do apóstolo
Paulo, ao falar da união conjugal. É uma virgem que pintava e enfeitava os olhos e os lábios com a luz da consciência e a cor do sangue do verdadeiro e divino Cordeiro; e que, pela meditação contínua, trazia sempre em seu íntimo a morte daquele que tanto amava. Deste modo, a mística veste de seu testemunho fala por si mesma a todas as gerações futuras, porque traz em si a marca indelével do sangue de Cristo e o tesouro inesgotável da sua eloqüência virginal.

Ela é uma imagem autêntica da bondade, porque, sendo de Deus, vem da parte de seu
Esposo nos tornar participantes daqueles bens, dos quais seu nome traz o valor e o
significado: Águeda (que quer dizer “boa”) é um dom que nos foi concedido por Deus,
verdadeira fonte de bondade.

Qual a causa suprema de toda a bondade, senão aquela que é o Sumo Bem? Por isso,
quem encontrará algo mais que mereça, como Águeda, os nossos elogios e louvores?

Águeda, cuja bondade corresponde tão bem ao nome e à realidade! Águeda, que pelos
feitos notáveis traz consigo um nome glorioso, e no próprio nome demonstra as ilustres
ações que realizou! Águeda, que nos atrai com o nome, para que todos venham ao seu
encontro, e com o exemplo nos ensina a corrermos sem demora para o verdadeiro bem,
que é Deus somente!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Alcançar a maturidade na fé, permanecendo crianças...

Dos Tratados sobre os Salmos, do Pseudo-Hilário

(Ps.132: PLS1,244-245)

(Séc.IV)

Todos os fiéis tinham um só coração e uma só alma
 Vede como é bom e alegre habitarem juntos os irmãos. Bom e alegre é habitar na
unidade com os irmãos, porque vivendo deste modo, juntam-se à unidade da Igreja e,
dizendo-se irmãos, concordam na caridade de um só querer.

Já na primeira pregação dos apóstolos existia este grande preceito, conforme lemos:
Todos os fiéis possuíam um só coração e uma só alma.

Convém, portanto que o povo de Deus seja de irmãos em um só Pai, uma unidade em
um só Espírito, vivam unânimes em uma só casa, sejam membros de um só corpo.

Bom e alegre é habitarem os irmãos na unidade. O profeta encontra uma comparação
para esta alegria e bondade: Como o óleo sobre a cabeça, que desce pela barba de
Aarão, até à orla de suas vestes. O óleo de Aarão foi um bálsamo composto de
perfumes, que o ungiu por sacerdote. Agradou a Deus que assim, primeiramente, fosse
consagrado seu sacerdote. Nosso Senhor também foi ungido invisivelmente, de
preferência a seus companheiros. Unção não terena; não derramada de um chifre,
como se ungiam os reis, mas unção com o óleo da alegria, depois da qual, conforme a
lei, Aarão foi chamado de “Cristo”, isto é, “o ungido”.

Como esta unção expele os imundos espíritos do coração de quem a recebe, também
pela unção da caridade, começamos a exalar a concórdia, tão suave a Deus, como diz o
apóstolo: Somos o bom odor de Cristo. Assim, pois, como a primeira unção, e de Aarão
sacerdote, foi agradável a Deus, do mesmo modo é bom e alegre habitarem os irmãos na
unidade.

O óleo desceu da cabeça à barba. A barba é o distintivo da idade adulta. Não é bom
sermos crianças em Cristo, a não ser, como já se disse, crianças na malícia, não no
entendimento. O apóstolo chama todos os infiéis de criancinhas, que ainda não
suportam alimento sólido, precisam de leite. Ele diz: Dei-vos leite a beber e não
alimento sólido; ainda não éreis capazes e nem mesmo agora o sois.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Hoje é dia de São Brás!

São Brás

O santo de hoje nasceu na cidade de Sebaste, Armênia, no final do século III. São Brás, primeiramente, foi médico, mas entrou numa crise, não profissional, pois era bom médico e prestava um ótimo serviço à sociedade. Mas nenhuma profissão, por melhor que seja, consegue ocupar aquele lugar que é somente de Deus. Então, providencialmente, porque ele ia se abrindo e buscando a Deus, foi evangelizado. Não se sabe se já era batizado ou pediu a graça do Santo Batismo, mas a sua vida sofreu uma guinada. Esta mudança não foi somente no âmbito da religião, sua busca por Nosso Senhor Jesus Cristo estava ligada ao seu profissional e muitas pessoas começaram a ser evangelizadas através da busca de santidade daquele médico.

Numa outra etapa de sua vida, ele discerniu que precisava se retirar. Para ele, o retiro era permanecer no Monte Argeu, na penitência, na oração, na intercessão para que muitos encontrassem a verdadeira felicidade como ele a encontrou em Cristo e na Igreja. Mas, na verdade, o Senhor o estava preparando, porque, ao falecer o bispo de Sebaste, o povo, conhecendo a fama do santo eremita, foi buscá-lo para ser pastor. Ele, que vivia naquela constante renúncia, aceitou ser ordenado padre e depois bispo; não por gosto dele, mas por obediência.

Sucessor dos apóstolos e fiel à Igreja, era um homem corajoso, de oração e pastor das almas, pois cuidava dos fiéis na sua totalidade. Evangelizava com o seu testemunho.

São Brás viveu num tempo em que a Igreja foi duramente perseguida pelo imperador do Oriente, Licínio, que era cunhado do imperador do Ocidente, Constantino. Por motivos políticos e por ódio, Licínio começou a perseguir os cristãos, porque sabia que Constantino era a favor do Cristianismo. O prefeito de Sebaste, dentro deste contexto e querendo agradar ao imperador, por saber da fama de santidade do bispo São Brás, enviou os soldados para o Monte Argeu, lugar que esse grande santo fez sua casa episcopal. Dali, ele governava a Igreja, embora não ficasse apenas naquele local.

São Brás foi preso e sofreu muitas chantagens para que renunciasse à fé. Mas por amor a Cristo e à Igreja, preferiu renunciar à própria vida. Em 316, foi degolado.

Conta a história que, ao se dirigir para o martírio, uma mãe apresentou-lhe uma criança de colo que estava morrendo engasgada por causa de uma espinha de peixe na garganta. Ele parou, olhou para o céu, orou e Nosso Senhor curou aquela criança.

Peçamos a intercessão do santo de hoje para que a nossa mente, a nossa garganta, o nosso coração, nossa vocação e a nossa profissão possam comunicar esse Deus, que é amor.


São Brás, rogai por nós!

A profissão de fé de Inácio nos convida à perseverança!

Da Carta aos Esmirnenses, de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir.

(Inscriptio; nn. 1,1–4,1: Funk 1, 235-237)                 (Séc. I)

Cristo chamou-nos para seu reino glorioso
Inácio, o Teóforo, à Igreja de Deus Pai e de Jesus Cristo, o dileto, rica de todos os dons da misericórdia, repleta de fé e de caridade, sem que lhe falte qualquer graça, muito amada por Deus, portadora da santidade, à Igreja que está em Esmirna na Ásia, efusivas saudações no Espírito imaculado e no Verbo de Deus.

Rendo glória a Jesus Cristo, Deus, que vos deu tanta sabedoria; pois notei como sois
perfeitos na fé inabalável, como que, de corpo e alma, presos por cravos à cruz do
Senhor Jesus Cristo e firmes na caridade pelo sangue de Cristo, crendo com fé plena e
segura que nosso Senhor é em verdade oriundo da estirpe de Davi segundo a carne,
Filho de Deus pela vontade e poder de Deus. Crendo de igual modo que

verdadeiramente nasceu da Virgem, foi batizado por João para que nele se cumprisse
toda a justiça. Crendo que verdadeiramente, foi, sob Pôncio Pilatos e o tetrarca
Herodes, crucificado na carne por nós – a cujo fruto nós pertencemos por sua bem-
aventurada paixão – a fim de, por sua ressurreição, elevar pelos séculos a bandeira que
reúne seus santos e seus fiéis, judeus ou gentios, no único corpo de sua Igreja.

Tudo padeceu por nós para alcançarmos a salvação; e padeceu de verdade, como
também de verdade ressuscitou a si mesmo.

Eu também sei que, depois da ressurreição, vive em seu corpo e creio estar ele ainda
agora com seu corpo. Ao se encontrar com Pedro e seus companheiros, disse-lhes:
Pegai, apalpai-me e vede que não sou um espírito incorpóreo. E logo o tocaram e
creram, unidos à sua carne e a seu espírito. Por esta razão, desprezaram também a morte
e da morte saíram vitoriosos. Depois da ressurreição, comeu e bebeu com eles como
qualquer ser corporal, embora, espiritualmente,unido ao Pai.

Exorto-vos, portanto, caríssimos, embora bem saiba que pensais do mesmo modo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Procuramos o Reino fora, mas Deus o plantou dentro de nós!

Evangelho do dia 01/02/13 (Mc 4, 26-34):

Naquele tempo, 26Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. 27Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece.
28A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. 29Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”.
30E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”.
33Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.
_______________________________________

Comentário:
Sempre que me encontro com essas parábolas sobre o Reino, me recordo que o nosso tempo neste mundo é um chamado à maturidade. Assim como a semente lançada na terra germina e busca sua maturação, assim também o Evangelho em nós, quando acolhido, tende a desenvolver-se e a crescer a modo de Reino em nossa vida para ser colhido por Deus e por nós no final. Outra constatação importante é que a semente do Reino, quando encontra terra fértil, por menor que seja, produz grandes coisas! Como não lembrar do Cura D'Ars que considerado limitado intelectualmente no seminário se tornou o confessor da França; ou de Francisco, que acolhendo a irmã pobreza reformou a Igreja no seu tempo; ou de Madre Teresa, que sozinha e num país pagão recordou ao mundo o que é a caridade. Quantas pequenas sementes, quantas grandes realizações!

Esse pensamento me leva inevitavelmente a um exame de consciência... O que a semente do Evangelho está produzindo em mim? Na verdade a Palavra só precisa de terra boa, de coração disposto, para produzir através de nós e para nós o Reino de Deus. Eu me sinto sempre com esse incômodo bom, de ser interpelado pelo Evangelho diariamente em vista de me tornar melhor. E Você?

Procuramos um Reino de felicidade fora de nós, mas Deus se utilizou de nossos ouvidos para plantá-lo em nosso coração! Está dentro o que buscamos fora; dentro, mas querendo eclodir através das nossas obras!

Paz!

Como é importante recordar as maravilhas de Deus

O Bispo Fisher, nos recorda os prodígios divinos:
Do Comentário sobre os Salmos, de São João Fisher, bispo e mártir

(Ps.101: Opera Omnia, ed.1597,pp.1588-1589)          (Séc.XVI)

As maravilhas de Deus
Primeiramente, Deus, realizando muitos portentos e prodígios, libertou o povo de Israel
da escravidão do Egito. Deu-lhe passagem a pé enxuto através do mar Vermelho.
Sustentou-o com o pão vindo do céu, maná e codornizes. Da pedra duríssima fez jorrar
água abundante para os sedentos. Deu-lhe vitória sobre os inimigos que lhe moviam
guerra. Fez com que o Jordão, contrariando o seu ímpeto, retrocedesse por algum
tempo.Repartiu entre as tribos e as famílias a terra prometida. Concedeu-lhes tudo isto
com amor e generosidade. No entanto, ingratamente, aqueles homens esquecidos de
tudo, desleixando e mesmo repudiando o culto a Deus, não poucas vezes se
emaranharam no inominável crime da idolatria.

Depois, também a nós, quando ainda pagãos íamos atrás dos ídolos mudos, ao sabor de
nossas inclinações, ele nos cortou da oliveira selvagem da gentilidade e, quebrados os
ramos naturais, nos enxertou na verdadeira oliveira do povo judaico, tornando-nos
participantes da graça fecunda de sua raiz. Por fim, nem sequer poupou ao próprio
Filho, mas o entregou por todos nós como sacrifício e oblação de suave odor, a fim de
nos remir e de tornar puro e aceitável para si um povo.

Todos estes fatos, absolutamente certos, não são apenas provas de seu amor e de sua
generosidade para conosco, mas também acusações. Pois, ingratos, ou melhor,
ultrapassando todos os limites de ingratidão, nem damos atenção ao seu amor nem
reconhecemos a grandeza dos benefícios. Rejeitamos e temos por desprezível o liberal
doador de tão grandes bens. A imensa misericórdia que ele demonstrou incessantemente para com os pecadores não nos comove nem nos leva a adotar uma norma de vida conforme seu mandamento santo.

Tudo isto bem merece ser escrito para as gerações futuras, em perpétua memória. E
assim todos aqueles que no futuro receberem o nome de cristão, reconhecendo a infinita bondade de Deus para conosco, 
não deixem nunca de celebrá-lo com louvores divinos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A paternidade espiritual de D. Bosco.

Das Cartas de São João Bosco, presbítero
(Epistolario, Torino 1959, 4,201-203)
 (Séc.XIX)

Sempre trabalhei com amor
Antes de mais nada, se queremos ser amigos do verdadeiro bem de nossos alunos e
levá-los ao cumprimento de seus deveres, é indispensável jamais vos esquecerdes de
que representais os pais desta querida juventude. Ela foi sempre o terno objeto dos meus trabalhos, dos meus estudos e do meu ministério sacerdotal; não apenas meu, mas da cara congregação salesiana.

Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer
desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma
criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nosa impaciência e
nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando-os com firmeza e suavidade.

Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta
indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária
para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou
descarregar o próprio mau humor. Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu serviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.

Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até
mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os
pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em
muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que
aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.

Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as
faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada.

Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios;
então sereis verdadeiros pais e conseguireis uma verdadeira correção.

Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um
ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a
quem as ouve e não têm proveito algum para quem as merece.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Palavra foi lançada, que tipo de terreno encontrará?

Evangelho do dia 30/01/13 (Mc 4, 1-20):

Naquele tempo, 1Jesus começou a ensinar de novo às margens do mar da Galileia. Uma multidão muito grande se reuniu em volta dele, de modo que Jesus entrou numa barca e se sentou, enquanto a multidão permanecia junto às margens, na praia.
2Jesus ensinava-lhes muitas coisas em parábolas. E, em seu ensinamento, dizia-lhes: 3“Escu­tai! O semeador saiu a semear. 4Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho; vieram os pássaros e a comeram. 5Outra parte caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda, 6mas, quando saiu o sol, ela foi queimada; e, como não tinha raiz, secou. 7Outra parte caiu no meio dos espinhos; os espinhos cresceram, a sufocaram, e ela não deu fruto.
8Outra parte caiu em terra boa e deu fruto, que foi crescendo e aumentando, chegando a render trinta, sessenta e até cem por um”. 9E Jesus dizia: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. 10Quando ficou sozinho, os que estavam com ele, junto com os Doze, perguntaram sobre as parábolas. 11Jesus lhes disse: “A vós, foi dado o mistério do Reino de Deus; para os que estão fora, tudo acontece em parábolas, 12para que olhem mas não enxerguem, escutem mas não compreendam, para que não se convertam e não sejam perdoados”.
13E lhes disse: “Vós não com­preendeis esta parábola? Então, como compreendereis todas as outras parábolas? 14O semeador semeia a Palavra. 15Os que estão na beira do caminho são aqueles nos quais a Palavra foi semeada; logo que a escutam, chega Satanás e tira a Palavra que neles foi semeada. 16Do mesmo modo, os que receberam a semente em terreno pedregoso, são aqueles que ouvem a Palavra e logo a recebem com alegria, 17mas não têm raiz em si mesmos, são inconstantes; quando chega uma tribulação ou perseguição, por causa da Palavra, logo desistem.
18Outros recebem a semente entre os espinhos: são aqueles que ouvem a Palavra; 19mas quando surgem as preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e todos os outros desejos, sufocam a Palavra, e ela não produz fruto. 20Por fim, aqueles que recebem a semente em terreno bom são os que ouvem a Palavra, a recebem e dão fruto; um dá trinta, outro sessenta e outro cem por um.”
_______________________________________

Breve comentário:
Muito se pode dizer da Parábola do Semador, mas gostaria de me deter brevemente sobre uma das realidades citadas por Jesus. É a da semente caída entre espinhos, pois no meu entender corresponde ao perigo que cerca os cristãos de hoje, sobretudo os fracos na fé. Eles até escutam a Palavra, mas AS PREOCUPAÇÕES DO MUNDO, A ILUSÃO DA RIQUEZA e os DESEJOS sufocam a Palavra recebida. Deveríamos meditar mais sobre isso... Muita gente hoje está ocupada demais com os problemas da vida para ser cristão. Melhor dizendo, ocupamos o nosso tempo de tal forma que nem vivemos, somos simplesmente levados pela sucessão de compromissos e responsabilidades que anulam nossa liberdade ou discernimento. Reagimos ao que vai sendo proposto a nós a cada minuto, sem nos darmos conta do verdadeiro protagonismo que deveríamos assumir na nossa vida. Nesse caminho tudo se torna um peso, porque tudo é uma tarefa a ser executada por alguém que nunca tem tempo. Até a diversão perde o seu sabor... Será que não deveríamos desacelerar o ritmo para nos percebermos nesse processo e escutarmos melhor o que Deus de fato nos propõe?

Algo bem enraizado na nossa sociedade como proposta de felicidade é a ILUSÃO DA RIQUEZA. Impressionante como o diabo conseguiu distorcer o sentido de felicidade e como iludiu as pessoas na idéia de que o dinheiro é capaz de sanar as nossas frustrações. Parece que com dinheiro podemos comprar tudo! Sinceramente na fórmula de felicidade de todos existe sempre o fator estabilidade financeira e sucesso profissional como chave. Não digo que essas coisas não são boas, mas não sou ingênuo a ponto atribuir a elas um valor que elas não tem. O perigo aqui é de se colocar a confiança mais nessas coisas que em Deus! Muitas pessoas se sentem mais seguras no poder e nas riquezas do que na vontade do Senhor. E isso é uma grande ilusão! Um Salmo que costumamos rezar diz o seguinte: "Lá se vai o homem rico e poderoso, é semelhante ao gado gordo que se abate!" Jesus nos manda adquirir um tesouro no céu, tesouros espirituais, pois a matéria a traça corrói. Devemos buscar a manutenção de nossas famílias e isso é justo, mas devemos buscar a ponto de colocar isso acima da Palavra de Deus?

Depois, Jesus fala dos nossos DESEJOS... Penso que aqui a luta consiste em colocar o bem verdadeiro acima do que queremos. Digo verdadeiro porque muitas vezes disfarçamos de bem o que queremos só para justificar a busca. Num mundo relativista e consumista como o nosso, os nossos desejos são estimulados de uma forma quase irresistível. Parece que se não realizarmos nossos desejos não seremos felizes. Mas nem tudo o que desejamos é verdadeiro ou de fato bom, não é verdade? Nosso desejo pode ser tornar nosso cárcere, pode nos levar ao vício e a negação de nossa própria dignidade. Conformar nossos desejos ao bem é fazer com que eles se tornem correspondentes ao querer de Deus. Quando meus desejos são só meus (fora da vontade de Deus), eles sufocam a Palavra. Jesus nos adverte para tomarmos cuidado com eles... Existe um equilíbrio entre o Bem que precisamos e os desejos que temos? Nos deixamos levar pelos nossos desejos ou conseguimos ter sempre presente a noção do bem maior?

Fato é que a Palavra é sempre lançada, como uma semente, para todos e em todos. Epero que ela encontre em nós terra fértil e que os espinhos de nossa vida não a sufoquem, pois dali brota a vida eterna!

Paz!

Crescer na confiança na Graça!

Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, de São Bernardo, abade

(Sermo 61,3-5: Opera omnia2,150-151)          (Séc.XII)

Onde abundou o delito, superabundou a graça
Onde encontrar repouso tranqüilo e firme segurança para os fracos, a não ser nas chagas do Salvador? Ali permaneço tanto mais seguro, quanto mais poderoso é ele para salvar. O mundo agita, o corpo dificulta, o demônio arma ciladas; não caio, porque estou
fundado sobre rocha firme. Pequei e pequei muito; a consciência abala-se, mas não se
perturba, pois me lembro das chagas do Senhor. Ele foi ferido por causa de nossas
iniqüidades. Que pecado tão mortal que a morte de Cristo não apague? Se vier à mente
tão poderoso e eficaz remédio, não haverá mal que possa aterrorizar.

Por isso, muito errou quem disse: Tão grande é o meu pecado que não merece perdão.
Mostra com isso não ser membro de Cristo nem lhe interessar o mérito de Cristo, por
apoiar-se no próprio merecimento, declarar coisa sua o que pertence a outro,como
acontece com um membro em relação à cabeça.

Quanto a mim, vou buscar o que me falta confiadamente nas entranhas do Senhor, tão
cheias de misericórdia, que não lhe faltam fendas por onde se derrame. Cavaram suas
mãos e seus pés, traspassaram seu lado; por estas fendas é-me permitido sugar o mel da pedra, o óleo do rochedo duríssimo, quero dizer, provar e ver quão suave é o Senhor.

Ele alimentava pensamentos de paz e eu não sabia. Pois quem conheceu o pensamento
do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Mas o cravo que penetra tornou-se-me a
chave que abre a fim de ver a vontade do Senhor. Que verei através das fendas? Clama
o cravo, clama a chaga que Deus está em Cristo reconciliando o mundo consigo. A
espada atravessou sua alma e tocou seu coração; é-lhe agora impossível deixar de
compadecer-se de minhas misérias.

Abre-se o íntimo do coração pelas chagas do corpo, abre-se o magno sacramento da
piedade, abrem-se as entranhas de misericórdia de nosso Deus que induziram o
Oriente, vindo do alto a visitar-nos. Qual o íntimo que se revela pelas chagas? Como
poderia brilhar de modo mais claro do que em vossas chagas, que vós, Senhor, sois
suave e manso e de imensa misericórdia? Maior compaixão não há do que entregar sua
vida por réus de morte e condenados.

Em vista disso, meu mérito é a misericórdia do Senhor. Nunca me faltam méritos
enquanto não lhe faltar a comiseração. Se forem numerosas as misericórdias do Senhor,
eu muitos méritos terei. Que acontecerá se me torno bem consciente dos meus muitos
pecados? Onde abundou o delito, superabundou a graça. E se as misericórdias de Deus
são de sempre e para sempre, também eu cantarei eternamente as misericórdias do
Senhor. Acaso é minha a justiça? Senhor, lembrar-me-ei unicamente de vossa justiça.
Vossa, sim, e minha; porque vós vos fizestes para mim justiça de Deus.