domingo, 13 de janeiro de 2013

Gregório de Nazianzo: "Cristo é batizado, desçamos com ele às águas para com ele subirmos."

Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo

 
(Oratio in sancta Lumina, 14-16. 20:PG 36, 350-351. 354. 358-359)
(Séc. IV)
O batismo de Cristo
Cristo é iluminado no batismo, recebemos com ele a luz; Cristo é batizado, desçamos com ele às águas para com ele subirmos.

João batiza e Jesus se aproxima; talvez para santificar igualmente aquele que o batiza e, sem dúvida, para sepultar nas águas o velho Adão. Antes de nós, e por nossa causa, ele que é Espírito e carne santificou as águas do Jordão, para assim nos iniciar nos sacramentos mediante o Espírito e a água.

João reluta, Jesus insiste. Eu é que devo ser batizado por ti (cf. Mt 3,14), diz a lâmpada ao Sol, a voz à Palavra, o amigo ao Esposo, diz o maior entre todos os nascidos de mulher ao Primogênito de toda criatura, aquele que estremecera de alegria no seio materno ao que fora adorado no seio de sua Mãe, o que era e seria precursor ao que já tinha vindo e de novo há de vir.  Eu é que devo ser batizado por ti. Podia ainda acrescentar: e por causa de ti. Pois sabia que ia receber o batismo de sangue ou que, como Pedro, não lhe seriam apenas lavados os pés.
Jesus sai das águas, elevando consigo o mundo que estava submerso, e vê abrirem-se os céus de par em par, que Adão tinha fechado para si e sua posteridade, assim como o paraíso lhe fora fechado por uma espada de fogo.

O Espírito, acorrendo àquele que lhe é igual, dá testemunho da sua divindade. Vem do céu uma voz, pois também vinha do céu aquele de quem se dava testemunho. E ao mostrar-se na forma corporal de uma pomba, o Espírito glorifica o corpo de Cristo, já que este, por sua união com a  divindade, é o corpo de Deus. De modo semelhante, muitos séculos antes, uma pomba anunciara o fim do dilúvio.

Veneremos hoje o batismo de Cristo e celebremos dignamente esta festa.

Permanecei inteiramente puros e purificai-vos sempre mais. Nada agrada tanto a Deus quanto o arrependimento e a salvação do homem, para quem se destinam todas as suas palavras e mistérios. Sede como luzes no mundo, isto é, como uma força vivificante para os outros homens. Permanecendo como luzes perfeitas diante da grande luz, sereis inundados pelo esplendor dessa luz que brilha no céu e iluminados com maior pureza e fulgor pela Trindade. Dela acabastes de receber, embora não em plenitude, o único raio que procede da única Divindade, em Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Eu quero, fica purificado." Comentário do Evangelho.


Evangelho do dia (11/01/13) Lc 5, 12-16:

12Aconteceu que Jesus estava numa cidade, e havia aí um homem leproso. Vendo Jesus, o homem caiu a seus pés, e pediu: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. 13Jesus estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero, fica purificado”. E imediatamente, a lepra o deixou. 14E Jesus recomendou-lhe: “Não digas nada a ninguém. Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela purificação o prescrito por Moisés como prova de tua cura”. 15Não obstante, sua fama ia crescendo, e numerosas multidões acorriam para ouvi-lo e serem curadas de suas enfermidades. 16Ele, porém, se retirava para lugares solitários e se entregava à oração.


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Comentário:
  Ser leproso na época de Jesus era uma das piores situações de enfermidade. Os leprosos viviam nas cavernas aos arredores da cidade e comiam do que era dado pela caridade dos outros. Carregavam sinos para que as pessoas pudessem se afastar diante da sua presença. Eram considerados imundos. Ser leproso configurava uma morte social completa e uma morte lenta, pois a lepra era doença incurável naquele tempo. Caso um leproso ficasse curado, deveria ser apresentar ao sacerdote para que ele, depois de constatar o fato, o autorizasse a retornar ao convívio social. Vale dizer que um leproso não tem nada a perder, dada a sua situação. Um desses homens se aproxima de Jesus hoje no Evangelho. Esse homem, vencido pela tragédia pessoal, cai de joelhos aos pés de Jesus. Seu gesto é de rendição, de súplica desesperada, mas suas palavras são acertadíssimas! Primeiro chama Jesus de "Senhor". O reconhecimento do Senhorio de Jesus é o ponto de partida. Segundo, ele se submete a vontade de Cristo ao dizer: "se queres"(!). Esse reconhecimento de sua incapacidade de sair de sua condição miserável e a transferência de suas expectativas para o Senhor, manifesta a profundidade do pedido: Eu estou a mercê de sua vontade! Por fim, a afirmação da fé: "tu tens o poder de me purificar"(!). Eis a sabedoria desse sofredor: Ele não é Senhor de nada, mas sabe reconhecer quem de fato o é; ele sabe que é a vontade de Deus que tudo conduz e se submete a ela; ele suplica com fé ao único que pode livrá-lo de sua condição. Acho que o leproso do Evangelho nos ensina muito hoje, não?
  Não poderíamos deixar de falar do movimento de Deus. Primeiro, Jesus não se afasta quando o leproso se aproxima, reação normal das pessoas do seu tempo. Permite ao leproso, mesmo coberto por sua "imundície" (termo usado no tempo de Jesus para os que estavam nessa condição) se aproxime, mas mais que isso: ESTENDE A MÃO E TOCA NELE! Depois, manifesta o seu querer: FICA PURIFICADO! Gesto e palavra acompanham o milagre! E por fim, manifesta o verdadeiro signifcado amoroso do gesto quando pede: "Não digas nada a ninguém". Confesso que um turbilhão de idéias e sentimentos me permeiam quando me coloco diante dessas atitudes. Deus não se afasta de nós, mesmo se estamos impuros! Permite que nos aproximemos sempre. O que fazemos dessa permissão é outra história. Ouve e acolhe sempre o nosso argumento! Apesar de tudo, estende sempre a mão e nos toca! Manifesta seu desejo redentor: EU QUERO! (quase escuto no fundo uma pergunta implícita para mim: e você, quer?) A força de sua palavra realizou, como decreto proclamado e imediatamente executado, aquilo que o encontro entre a fé do leproso e a vontade poderosa de Deus gerou: cura. O segredo pedido por Jesus não é por modéstia ou humildade, mas soa para mim como um: eu não preciso de nada em troca, o que fiz é dom para você. Entendo como expressão de um amor que doa generosamente e não espera retribuição alguma a não ser o bem em si que foi feito a pessoa amada. O homem vai, se apresenta ao sacerdote, e retorna a vida e ao convívio social. Isso basta para Jesus.
  Precisamos paradoxalmente ser como o leproso do Evangelho, permitindo que Deus realize a obra que só Ele pode realizar na nossa vida. Diante da grandeza de Deus o que somos nós? Somos coxos, cegos, leprosos, prisioneiros, mendigos necessitados de sua intervenção. Mas o belo é saber que depois que nos expomos a Ele somos supreendidos, pois na verdade somos filhos, chamados a viver na casa do Pai.
Paz!

Preparando a Festa do Batismo do Senhor: São Máximo nos explica os sinais do batismo do Senhor.

Dos Sermões de São Máximo de Turim, bispo
(Sermo 100, de sancta Epiphania 1, 3: CCL 23, 398-400)
(Séc. V)

Os sinais do  batismo do Senhor
O evangelho nos conta que o Senhor foi ao Jordão para ser batizado e quis ser consagrado neste rio por sinais do céu.

Não é sem razão que celebramos esta festa pouco depois do dia do Natal do Senhor, já que os dois acontecimentos se verificaram na mesma época, embora com diferença de anos; julgo que também ela deve chamar-se festa do Natal.

No dia do Natal, Cristo nasceu entre os homens; hoje renasce pelos sinais sagrados; naquele dia, nasceu da Virgem; hoje é gerado pelos sinais do céu. No Natal, ao nascer o Senhor segundo a natureza humana, Maria, sua mãe, o acaricia em seu colo; agora, ao ser gerado entre os sinais celestes, Deus, seu Pai, o envolve com sua voz, dizendo: Este é o meu filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o (Mt 17,5). Sua mãe o traz nos braços com ternura, seu Pai lhe presta o testemunho de amor. A Mãe apresenta-o aos magos para que o adorem, o Pai apresenta-o às nações para que o reverenciem.

O Senhor Jesus foi, portanto, receber o batismo e quis que seu santo corpo fosse lavado nas águas.

Talvez alguém diga: “Se ele era santo, por que quis ser batizado?” Escuta: Cristo foi batizado, não para ser santificado pelas águas, mas para santificá-las e para purificar as torrentes com o contato de seu corpo. A consagração de Cristo é sobretudo a consagração da água.

Assim, quando o Salvador é lavado, todas as águas ficam puras para o nosso batismo; a fonte é purificada para que a graça batismal seja concedida aos povos que virão depois. Cristo nos precede no batismo para que os povos cristãos sigam confiantemente o seu exemplo. Vejo aqui um significado misterioso: também a coluna de fogo ia na  frente através do mar Vermelho, para que os filhos de Israel a seguissem corajosamente no caminho; foi a primeira a atravessar as águas, a fim de abrir caminho aos que vinham atrás. Este acontecimento, como diz o Apóstolo, era uma figura do batismo. Foi certamente uma espécie de batismo, no qual os homens eram cobertos pela nuvem e passavam através das ondas.

Tudo isso foi realizado pelo mesmo Cristo nosso Senhor, que agora, na coluna do seu corpo, precede no batismo os povos cristãos, como outrora, na coluna de fogo, precedeu através do mar os filhos de Israel. Sim, é a mesma coluna que outrora iluminou os olhos dos caminhantes que hoje enche de luz os corações dos que crêem. Outrora abriu um caminho seguro entre as ondas, hoje firma no batismo os passos da nossa fé.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Comentário do Evangelho: Você sabe qual é a resposta para todas as suas orações?

Evangelho do dia (10/01/13) Lc 4, 14-22a:

Naquele tempo, 14Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. 15Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam. 16E veio à cidade de Nazaré onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado e levantou-se para fazer a leitura.
17Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: 18“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19e para proclamar um ano da graça do Senhor”.
20Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.
22aTodos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca


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Comentário:
  Hoje no Evangelho Jesus está na Sinagoga de sua cidade, Nazaré. Realiza ali o grande anúncio da realização plena das promessas messiânicas: "Hoje se cumpriu"(!). Com todos os olhos fixos nele, Jesus revela que Ele é a resposta de Deus para a espera de Israel! Gosto desse texto porque ele, de certa forma, responde a todas as nossas orações. Os séculos de súplicas de Israel encontram resposta na encarnação do próprio Deus, pois Ele é um Deus-conosco. Ele veio para nos livrar do mal. Você sabe qual é a resposta para todas as suas orações? Cristo! Nós pedimos, mas já temos a resposta! Não parece um paradoxo? Deus já nos respondeu de uma vez por todas no seu Filho amado. Você está sofrendo? Olhe para o Cristo, Ele é a sua resposta. Você tem dúvidas? Olhe para o Cristo. Você quer louvar? Olhe para o Cristo. Quer inteceder? Olhe para o Cristo. E assim por diante... Não há pergunta ou inquietação humana que o Cristo não responda!
  Vou ser mais específico: podemos procurar nos dizeres de Jesus, no seu olhar, no seu comportamento, no modo como Ele se relaciona com as pessoas, na sua oração, em tudo e em cada momento de sua vida as explicações que precisamos para todos os nossos dilemas humanos. O problema é que dizemos que amamos um Jesus que nós não conhecemos... Um Jesus genérico. Aquela face genérica de olhos azuis pintada em tantas representações artísticas... Veja, não é uma crítica a arte, mas a triste constatação que nos remetemos mais ou menos a uma fisionomia e basta. Todo mundo é amigo de Jesus, porque na verdade não o confronta! Não deixamos que Ele nos interrogue sobre nossa vida moral e espiritual. Nós o mantemos como aquele indivíduo que admiramos por sua postura e idéias, mas sem muito maior compromisso. É estranho dizer, mas muitos tratam Jesus como uma celebridade qualquer e não como Mestre e Senhor.
  Hoje Ele nos apresenta seu projeto: Anunciar aos pobres a boa notícia, libertar cativos, dar vista aos cegos, acabar com a opressão, comunicar a graça! E diz: Hoje!!!! Não para amanhã, é para hoje! É para mim e para você! É hoje! Já parou para pensar de verdade no assunto? Deus quer te dar a graça hoje! Não aquela que você pediu, nem o milagre que você acha que precisa, mas muito mais que isso: Ele dá a si mesmo para você hoje! O que podemos querer mais que o próprio Deus? O milagres e as pequenas graças são consequências dessa maior: Hoje se cumpriu para nós todas as promessas de Deus. Pois através de Jesus recebemos o Espírito Santo, Deus em nós!
  Convido vocês, então, a conhecer melhor essa graça dada. Conheçam Jesus. Vamos ir além daquela fisionomia, ou daquelas generalidades. Vamos ao seu Evangelho; vamos a fonte; vamos conhecer a sua Pessoa Divina, revelada e testemunhada para nós. Ao descubrir esse Jesus é impossível não amá-lo... Termino com as palavras de João na primeira leitura de hoje:

"Caríssimos, quanto a nós, amamos a Deus porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas entretanto odeia o seu irmão, é um mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão. Todo o que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus, e quem ama aquele que gerou alguém amará também aquele que dele nasceu. Podemos saber que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Pois isto é amar a Deus: observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé" (1Jo 4, 19 -- 5,4).

Preparando a Festa do Batismo do Senhor: Cristo recebeu o Espírito Santo para nós!

Do Comentário sobre o Evangelho de São João, de São Cirilo de Alexandria, bispo

 
(Lib. 5, cap. 2: PG 73, 751-754)
(Séc. V)

A efusão do Espírito Santo sobre todos os homens
Tendo o Criador do universo decidido restaurar todas as coisas em Cristo, dentro da mais admirável e perfeita ordem, e restituir à natureza humana sua condição original, prometeu, junto com os outros dons que daria copiosamente, conceder o Espírito Santo. Pois, de outro modo o homem não poderia ser reintegrado na posse tranqüila e permanente desses dons.

Determinou, portanto, o tempo em que o Espírito Santo desceria sobre nós, isto é, o da vinda de Cristo, prometendo com estas palavras: Naqueles dias, a saber, nos dias do Salvador, derramarei meu Espírito sobre todo ser humano (Jl 3,1).

Quando esse tempo de imensa e gratuita liberalidade trouxe ao mundo o Filho Unigênito encarnado, isto é, como homem nascido de mulher, segundo a Sagrada Escritura, novamente Deus Pai nos concedeu o seu Espírito, sendo Cristo o primeiro a recebê-lo como primícias da natureza renovada. João Batista o testemunhou dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu, e permanecer sobre ele (Jo 1,32).

Afirma-se que Cristo recebeu o Espírito enquanto homem e enquanto convinha ao homem recebê-lo; embora seja Filho de Deus Pai e gerado de sua substância, mesmo antes da encarnação, e mais ainda, antes de todos os séculos, não se ofende ao ouvir Deus Pai declarar-lhe, depois que se fez homem: Tu és meu Filho, e eu hoje te gerei (Sl 2,7).

O Pai diz que foi gerado hoje aquele que antes dos séculos era Deus, gerado por ele, para receber-nos em Cristo como filhos adotivos. Com efeito, toda a natureza humana se encontra em Cristo enquanto homem. Assim o Pai dá ao Filho seu próprio Espírito, a fim de que em Cristo também nós o recebamos. Por esse motivo, Cristo veio em auxílio da descendência de Abraão, como está escrito, e tornou-se em tudo semelhante a seus irmãos.

O Unigênito de Deus não recebeu o Espírito Santo para si mesmo; com efeito, esse Espírito que é seu, nos é dado nele e por ele, como já dissemos antes, pois, tendo-se feito homem, tinha em si a totalidade da natureza humana, a fim de restaurá-la toda e restituir-lhe a integridade original. Podemos ver assim – se quisermos aplicar um reto raciocínio e os testemunhos da Escritura – que Cristo não recebeu o Espírito Santo para si mesmo, mas para que o recebêssemos nele; pois é também por ele que recebemos todos os bens.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Preparação para a festa do Batismo: São Proclo nos explica a santificação das águas

Dos Sermões de São Proclo de Constantinopla, bispo
 
(Oratio 7 in sancta Teophania, 1-3: PG 65, 758-759)
(Séc. V)
A santificação das águas

 Cristo manifestou-se ao mundo e, pondo ordem onde havia desordem, encheu-o de beleza e alegria. Tirou o pecado do mundo e  do mundo expulsou o inimigo. Santificou as fontes das águas e iluminou os corações dos homens. Aos milagres, acrescentou milagres ainda maiores.
 Hoje a terra e o mar repartiram entre si a graça do Salvador, e o mundo inteiro encheu-se de alegria. Este dia nos apresenta maior profusão de milagres que a solenidade anterior.
 De fato, na precedente festa do nascimento do Salvador, a terra se alegrava por ter o Senhor no presépio; mas neste dia das Teofanias, é o mar que exulta e estremece de júbilo, porque recebeu a bênção santificadora por meio do rio Jordão.
 A solenidade passada nos apresentava uma criança frágil, atestando nossa imperfeição. Na festa de hoje, porém, vemos um homem perfeito, que de modo velado, nos manifesta a perfeição daquele que procede do Ser perfeito. Da primeira vez, o Rei vestia a púrpura do corpo humano; agora, as águas do rio envolvem qual manto aquele que é a fonte.
 Considerai, pois, e vede estes novos e estupendos milagres: o sol da justiça que se banha no Jordão, o fogo mergu-lhado na água, Deus santificado pelo ministério de um homem.
 Hoje toda a criação entoa hinos e proclama: Bendito o que vem em nome do Senhor (Sl 117,26). Bendito o que vem em todo tempo, pois não é esta a primeira vez que veio.
 E quem é ele? Dize-nos mais claramente, peço-te, santo Davi: O Senhor é o Deus que nos ilumina (Sl 117, 27). Não foi só o profeta Davi que disse; também o apóstolo Paulo confirmou o seu testemunho com estas palavras: A graça de Deus se manifestou trazendo a salvação para todos os homens; ela  nos ensina (Tt 2,11). Não somente para alguns, mas para todos. Sim, para todos, para os judeus e para os gregos, a salvação é dada por meio do batismo, que oferece a todos um benefício universal.
 Prestai atenção, contemplai o novo e admirável dilúvio, maior e mais poderoso que o do tempo de Noé. No primeiro dilúvio, a água fez perecer o gênero humano; agora, porém, a água do batismo, pelo poder daquele que foi batizado por João, chama os mortos para a vida. No primeiro dilúvio, uma pomba, trazendo no bico um ramo de oliveira, anunciava o odor de suavidade do Cristo; agora, o Espírito Santo, vindo em forma de pomba, mostra-nos o Senhor cheio de misericórdia.

Cansado da luta? Encontre conforto em Jesus...

Comentário do Evangelho do Dia 09/01/13:

Depois de saciar os cinco mil homens, 45Jesus obrigou os discípulos a entrarem na barca e irem na frente para Betsaida, na outra margem, enquanto ele despedia a multidão. 46Logo depois de se despedir deles, subiu ao monte para rezar.
47Ao anoitecer, a barca estava no meio do mar e Jesus sozinho em terra. 48Ele viu os discípulos cansados de remar, porque o vento era contrário. Então, pelas três da madrugada, Jesus foi até eles andando sobre as águas, e queria passar na frente deles.
49Quando os discípulos o viram andando sobre o mar, pensaram que era um fantasma e começaram a gritar. 50Com efeito, todos o tinham visto e ficaram assustados. Mas Jesus logo falou: “Coragem, sou eu! Não tenhais medo!” 51Então subiu com eles na barca, e o vento cessou. Mas os discípulos ficaram ainda mais espantados, 52porque não tinham compreendido nada a respeito dos pães. O coração deles estava endurecido.
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Hoje, diante do Evangelho, tive um pensamento irresistível: A visão dos discípulos cansados porque estão remando com o vento contrário... É cansativo remar contra o vento, vocês já experimentaram? Não pude deixar de notar o quanto esse cansaço pode ser desanimador, pois parece que não saímos do lugar e que lutar contra a corrente é algo sem sentido. Vejo no discurso de alguns cristãos um pessimismo em relação ao combate espiritual e moral nos dias de hoje, como se fosse impossível deter a corrente, como se devessemos deixar de lutar contra ela. Parece que relativismo, hedonismo, imoralidade e corrupção (e a lista poderia ser gigantesca...) são mais forte do que nós. E sabe o quê? São mesmo. Tudo isso é muito mais forte de que um único indivíduo! Acho que esse é o erro da nossa estratégia: achar que temos que vencer tudo isso sozinhos! Vejo um monte de indivíduos lutando sozinhos contra uma corrente forte que arrasta a cada um. A verdade é que a soma de indiviualidades não forma uma comunidade. O segredo está em aprendermos a enfrentar as dificuldades da vida juntos. Quem disse que temos que superar todas as dificuldades sozinhos? Quando dividimos o fardo ele se torna sempre mais leve. Vejo também cristãos que combatem com heroísmo, mas porque o fazem sozinhos sucumbem. Como precisamos recordar as primeiras comunidades que colocavam tudo em comum. Muitos pensam só no aspecto material, mas na verdade a comunhão pode ser sempre mais profunda, pois o cristão chora com quem chora e se alegra com quem se alegra! Divide os bens, sim. Mas também divide a vida!

Por mais que a força da comunidade seja grande, a corrente ainda é forte. Muitos esquecem do que na verdade é o essencial: Permitir que a força de Jesus esteja sempre a nossa frente. A grande verdade é que a humanidade precisou ser salva, porque sozinha não era capaz. Mesmo uma comunidade, sem Jesus, não pode fazer frente ao pecado de um mundo inteiro. Sem Jesus seremos todos arrastados! Me surpreeendo de ver como nós, da mesma forma que os discípulos daquele tempo, ainda não conseguimos compreender isso por causa da dureza do nosso coração! Mesmo depois de ver Jesus alimentar uma multidão, de vê-Lo caminhar sobre as águas, de testemunhar curas impossíveis, os discípulos não foram dóceis na sua adesão. O temor era maior que o amor! Por isso o Espírito de Deus foi derramado nos nossos corações! Para que fossemos capazes de crer Naquele que faz novas todas as coisas! Para renovarmos nossa mentalidade a ponto de compreender que nada pode nos separar do amor de Cristo! Quando Cristo entra na barca tudo se acalma, não existe mais cansaço, nem vento contrário, pois Ele é Senhor de tudo! É a alegria de aderir ao senhorio de Jesus que nos fará passar de discípulos cansados a intrépidos desbravadores, pois a força que precisamos não é nossa, ela provém de Deus, que nos amou primeiro e que nos chamou a participar de sua luz. Paulo era tão envolvido por essa força que dizia: Ai de mim se eu não evangelizar! O próprio Jesus, quando aclamado "Bendito que vem do Senhor" em sua entrada messiânica já revelava força dessa verdade do Evangelho dizendo: "Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras!" A novidade é irresistível porque é revelada pelo próprio Deus, e que adere a essa verdade encontra nela plenitude.

Termino com as palavras do próprio Jesus:

"Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve." (Mt 11, 28-30).

Procure encontrar repouso nos Senhor. Paz!